quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Étoiles de la Nuit



Em uma plena noite de verão, com o calor efervescendo o corpo daqueles que ainda estavam em pé durante a chegada da madrugada, ela sentia-se irrequieta. Não pudera dormir como acontecia em todas as noites. Sua mente vagueava entre mundos, seu corpo entorpecido jazia descoberto, tendendo a ficar inquieto à medida que seus olhos percorriam o ambiente.  Num segundo, olhando para cima, deu-se o encontro dos seus olhos com as estrelas no céu noturno, visíveis através da persiana aberta, ao mesmo tempo em que fachos de luz do poste entravam pela janela iluminando a parede acinzentada. E por horas ficou a contemplar as estrelas. Tão bonitas, tão grandiosas, porém pequenas vistas da Terra. Para alguns, ela sabia, o espaço é um lugar tão solitário. Mas não para ela, que só de olhar podia desvendar os mistérios contidos em astros tão luminosos. As estrelas eram maravilhosas em seus pequenos olhos escuros. Olhos que vagueavam a noite a procura de respostas. Pois ali, em seu quarto, a solidão postava-se demasiadamente grande e sombria. Seu âmago sabia, estivera atrás de alguma coisa, por menor que fosse para encher o vazio que a penetrava dia após dia. No entanto, ao olhar para o céu, via as estrelas como sua fonte superior, sua fonte de poder. Ao vê-las, tão distantes, tão pequenas, não se sentia mais só. O negro do espaço era reconfortante, com sua dimensão infinita de descobertas e segredos. E fechando os olhos, ela fazia um pedido às estrelas, sentindo o sopro do vento em seu rosto, enquanto adormecia lentamente. No fundo sempre soubera, as estrelas eram a sua crença. E o espaço jamais seria um lugar solitário!


sábado, 7 de janeiro de 2012

Janeiro - outro começo

     Nunca me senti dona de uma saúde perfeita, apesar de não possuir ossos de vidros. Não me quebro fácil - e pensando bem, acho que nunca cheguei a quebrar um osso. Mas nunca tive uma grande disposição para qualquer coisa, como uma bola de futebol furada que não rola por muito tempo. Sempre me senti uma gelatina, ou um gelo a derreter. Depois de algumas horas, meus braços pesam e caem, minha cabeça pesa e cai, minhas pernas cansam e ajoelham-se, e meu corpo todo tende a recostar-se a algum objeto e, assim, profundamente, meus olhos fecham. 

     Dizem que pareço frágil, prestes a quebrar a qualquer instante. Mas e quem não é? Bem... Não somos frágeis, amenos quem não tem ossos de vidro. E por isso sou grata. Nasci com todos os ossos no lugar e em perfeito estado. Mas e o resto? Ah, o resto... Fico pouco tempo em pé. As vezes chego a ser uma marionete, dependendo de forças externas para continuar a me mexer, e assim que essas forças se cansam, eu caio. Por partes não consigo esconder a minha fraqueza. Aliás, fico sem poder esconder por muito tempo, assim como um camaleão não se camufla por horas - sempre volta à sua cor natural. Mas não é essa a questão.

     Também sou muito forte, já aguentei muitos terremotos sem me mover e muitas agulhas no corpo sem dar um grito. Por que gritar? O mundo não aguentaria tantos berros, ainda mais de cada habitante. Como eu disse, somos fortes. E fracos. Ninguém é imensamente feito de pedra e nem imensamente feito de areia. Mas também não é esse o ponto.

     O que quero dizer é: nunca me senti dona de uma saúde perfeita. Sempre tive falhas, em qualquer aspecto. Não sou imune a gripes, febres, e nem a mentiras, falsidades. Não sou imune também a esse calor, já que falamos de saúde. Mas não é aí onde quero chegar. Falo em saúde e o que importa ser física, mental, sentimental, da cabeça ou do intestino? Ninguém possui uma saúde de ferro, porque ninguém é feito de lata. E até o homem de lata não possui uma saúde perfeita. Ninguém. Somos expostos todos os dias as outras pessoas - e não quero dizer que elas sejam tóxicas, muito pelo contrário -, mas podemos voltar ou frágeis ou fortes para casa. Mas e qual é a questão?

     Janeiro esta aí outra vez, precisamos cuidar de nossa saúde. Não existe recomeço em outros anos, isso é apenas psicológico. Aliás, não existe recomeço em qualquer hora de qualquer dia. Apenas existem outras chances. Mas chances não são tão inspiradoras como recomeços, assim podemos nos aproveitar de nossa saúde psicológica possuir algumas poucas falhas. Dessa maneira, mais 300 e poucos dias nós deveremos construir, e a cada dia, mais 300 e poucos milhões de pessoas poderão passar por nós, por nossas vidas, por nossas casas, por nosso interior... E mais 300 e poucos vírus poderão estar nos ares, nos quais respiramos, e 300 e poucas vezes poderemos ficar mal da saúde. Assim como 300 e poucos milhões de horas nós criaremos novos anticorpos, e mais 300 e pouco mil dias nós sorriremos, brincaremos, festejaremos. Serão mais 300 e poucos dias, e precisaremos cuidar de toda nossa saúde. Física, mental, espiritual, sentimental, da cabeça, do estômago... Todos nos sentiremos ou como gelo ou como ferro em alguns desses novos dias. Mas isso não importa, o importante é saber que não seremos únicos, e estaremos sempre nos recuperando. 

E esse é o ponto exato!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Despista-se

Os meus olhos não podem ver os seus, nem os dela, nem os do mundo. A visão esta tremida e a janela embaçada. Tudo o que me provara até agora, foi tudo o que eu não podia ouvir. Sinto ter chegado até aqui, e notado que ainda há algo dentro de mim prestes a explodir. Mas a vida é assim menina, aprenda a deixar o desnecessário para trás. Não importa quantos anos se passem, um dia você ainda verá que nem todas as barreiras foram  destruídas. Algumas foram apenas puladas. E é preciso que você volte, que todos nós voltamos, para mais uma vez tentarmos derruba-las. Algumas tempestades sempre acabam estando de volta, e nós temos que nos manter de pé. Eu tenho que me manter em pé, porque um dia eu prometi a mim mesma que nada mais me derrubaria. Mas sempre derruba, menina. Quero que você aprenda isso. Tudo o que foi dito a um tempo atrás, ecoa por todas nossas vidas atrás de nós. Esse é o poço sem fim de nossas vidas. Não há nada que possa calar, a voz que corre atrás de nós sempre alcança. Assim aprendemos um novo meio de despista-la, até a próxima. Porque nada pode ser mudado depois que o trajeto já foi traçado, nós apenas precisamos aprender a conviver com uma coisa dentro de nossas mentes: a falha. Mas a falha também fortalece. Mesmo que, muitas vezes, da forma errada. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O ultimo bom-bom


     Caminhava de um lado para outro, pelos corredores. A noite vinha caindo, e nada a despertava do seu anseio. Tudo ao redor era de um extremo silêncio. Por hora, resolveu sentar-se a uma poltrona, encostada ao fim do corredor, onde o caminho dava para a sala de estar. Quieta, olhou os móveis de soslaio. O balcão, com seus livros em cima, os sofás e abajures ligados, os lustres, tapetes, mesinhas de canto, todos possuindo os aspectos mais antigos. Ah, como adorava móveis antigos. Sentia uma curiosidade por tudo que pertencera à época das suas avós e bisavós. Os discos, os quadros, as cortinas já envelhecidas pelo tempo. Não podemos esquecer-nos de mencionar o lindo piano preto, discretamente colocado ao fundo da sala. E olhava tudo, quando suspirou.
    De repente, seus olhos chegaram a uma pequena caixinha, disposta ao lado do telefone, numa das milhares mesinhas de canto. Lembrara-se de sua infância, lembrara-se do dia passado. Levantou-se se dirigindo ao tocador de discos, de onde começou a soar as mais belíssimas melodias de Mozart. Caminhava pela sala, no mais suave dos passos. Sua mente foi viajando no tempo, enquanto voltava a fitar aquela caixinha de porcelana.
     Antigamente, era cheia de pequenos bom-bons nos mais variados sabores. Um para cada dia. Cada um, para cada humor. Os recheados de morango, para os dias mais doces da sua vida. Os de chocolate, para quando estivesse alegre. E os de maracujá serviam para quando algo triste ou terrivelmente melancólico tivesse acontecido, e jamais perderia as esperanças. Esses eram os que ela mais comia, diga-se por que.
Quando pequena, perdera o pai para uma terrível guerra. Teria ela em torno dos sete anos. Nunca entendera o motivo de seu pai deixar a família para segurar em uma arma, junto com milhares de outros homens sangrentos. Pobre menininha, tão jovem e inocente, pudera jamais querer conhecer os males do mundo. A partir daquele dia, então, vivia só com sua mãe e seu irmão mais novo. Os anos foram passando tranquilamente, enquanto a menina crescia. Quanto tinha de dezesseis para dezessete anos, outro male veio a atingir seu coração: a mãe adoecera. Jovem, viu-se na obrigação de cuidar do seu irmãozinho. Nessa época, foi contratada uma governanta para ajudar a cuidar da família. Era uma ótima pessoa, fazia todo o trabalho pesado dentro e fora da casa, dando descansos para a nossa menina, também a dando aulas de piano, durante todas as noites. E um ano depois, a mãe acabara de morrer. O luto foi grande, a menina sentiu-se perdida em um mundo grande e estranho, o qual não queria conhecer. Nessa fase, o irmão já havia crescido o suficiente, e agora era a governanta quem mais o cuidava. Foi nessa mesma época, que a menina comprou a caixinha de porcelana, enquanto visitam uma feira que se instalou na cidade por um mês. Então, começou a sua mania pelos bom-bons. Não é necessário dizer que desde esse momento, ela comia mais os de maracujá. A cada dia que acordava.
     Os dias eram quase os mesmos, sempre nas mesmas rotinas. A menina acordava, saia para os seus afazeres, depois que o relógio batia meia-hora, ela dirigia-se a caixa de bom-bom. Na maioria dos dias, no seu tempo livre, corria para debaixo de uma das árvores do pátio e lia um livro. Mais tarde, ela, a governanta e o irmão reuniam-se, e inventavam alguma brincadeira. À noite, era sua aula de piano. Melhorava a cada dia, tornando-se uma grande pianista. E assim seus dias foram caindo na rotina. Porém, em uma manhã, ela levantou e ouviu vozes estranhas vindas de fora. Como não eram habituados a visitas rotineiras, sentiu um pouco de medo e ansiedade. Vestiu-se e correu para fora, onde encontrou um belo rapaz, com boas vestimentas, conversando com a governanta, que naquele meio tempo, já se tornara uma amiga familiar. O rapaz trazia a notícia de que a jovem e o menino ainda tinham mais um familiar vivo. Um senhor de terras, que dizia ser seu avô. Como era de se esperar, a governanta teve um choque. Era quase impossível, sendo que eles jamais souberam da existência desse senhor. Mas era uma história de família muito complicada. A vida sempre surpreende. Esse senhor desejava vê-los, pagando a viajem até sua casa, duas cidades depois de onde eles estavam, e onde era para eles morarem. A surpresa foi grande, mas a nossa menina e seu irmão foram. Porém, houve uma série de despedidas da governanta, já que eles jamais se veriam novamente.
     Os anos foram passando, e agora comia mais bom-bons de chocolate. Já se tornara uma grande pianista, e seu irmão estava entrando para a escola. Dias calmos e serenos, eram a vida da menina. Saia para passear a cada fim de semana, e quando dava, tocava em algum evento quando chamada. Seu avô era um homem carinhoso, dava tudo o que eles precisavam. A vida para a menina tornava-se cada vez mais feliz, e ela já nem lembrava mais dos males que a tinham atingido. Vez em quando, sentia uma tremenda falta do lugar onde crescera, mas não mais desejaria voltar para lá. Era o que pensava.

     Mas, outro dia terrível teve que chegar para ela. Como era de se esperar, seu avô acabou falecendo, deixando a casa para os dois morarem. A jovem tinha vinte anos agora, e seu irmão, quatorze. Foi com muita dor, que os dois o enterraram. A adorável jovem sentiu-se mais uma vez desamparada, tendo um peso vazio dentro do seu olhar. Sua força era seu irmão. E como a vida fora cruel com ela...No mesmo ano, seu irmão acabou pegando uma das piores febres já vistas, e nenhum medicamento foi capaz de salvá-lo. O mundo ficou preto, seus olhos já não tinham mais brilho. Sentia uma tremenda falta de tudo. Sentia falta da sua infância, o melhor momento de sua vida. Decidiu ir visitar sua antiga casa, que ainda estava com todos os móveis no lugar. Levou consigo apenas a pequena caixa, deixando-a no lugar inicial. Andou por cada milímetro, chorando pouco as vezes.

     Por fim, sentiu medo. Mas de que? Agora, não teria mais nada para perder, por ironia do destino. Estava sozinha, e por mais que doesse a perda, ela sentia um alívio perturbador. Só o que possuía agora era a própria vida, que em um sopro, poderia se esvair. Naquele dia, ficaria na antiga casa. Então caminhou até a caixa de bom-bom, tirou o ultimo sabor, de maracujá, e pôs-se a sentar no sofá. 

Com um sorriso melancólico no rosto, acabou adormecendo.









domingo, 11 de dezembro de 2011

Amélias


Após muito, muito tempo, ela mergulhou em um mar infinito de aventuras e desilusões e realmente sentiu-se livre, tocável, e inalcançável. Amélia recusou-se a somente contemplar a vida da janela do seu quarto. As flores amarelas pareciam viver muito, muito bem, como se o tempo nem existisse. Mas ela desligou-se da sua beleza e energia extremamente agradáveis. Resolveu pousar sua magia em um mundo que realmente estava precisando dela. E dizia assim, por saber, que as cores lá fora estariam desaparecendo. Uma reconstrução, e ela passou a espalhar ao vento tudo aquilo que estava faltando: cores. E a vida revigorara, e o coração de Amélia enchia-se de um brilho peculiar, que a tal ponto, foi tornando possível amar de novo. E conhecer, todos novamente. Como num sopro de paixão, a vida se tornara agradável. Ao menos, naquele dia. Pois aquele dia, em si só, era especial. Era o dia em que Amélia reconhecer-se-ia não mais somente como alguém desse planeta, mas sim como alguém possível de mudá-lo. Porque naquele fim de tarde, ela apenas sobrevoou a cidade inteira, dentro daquelas pequenas flores amarelas, e sentiu-se importante. Mesmo na mais discreta interrupção, Amélia sentia-se a parte toda de um todo. E tudo refloresceu. 


sábado, 8 de outubro de 2011

Suavidade

Chego a pensar que o meu "tudo bem" já esta no automático. "Tudo bem?", estou bem! Penso sempre que daqui a pouco melhora. Já não tem mais motivos para ficar se lamentando. Devagar eu vou indo, esta tudo bem, afirmo. Daqui a pouco melhora, se acalma, daqui a pouco passa. E realmente passa. Tem vezes que passa tanto, que nem parece que algum dia tive alguma dor. Noutros dias, tudo o que sinto é plano. Já não tão baixo, nem tão alto. Mas daqui a pouco passa. Olhar pela janela e sentir esse vento suave no rosto, realmente me faz acreditar que um dia tudo isso passará. E tudo o que restar, vai ser puro. 


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Estrela Sumida

Ando fatigada. É só. Ando fatigada de algumas pessoas. "Tudo bem, isso é normal, também estou", disse-me ela. Mas não, não são as pessoas o problema. Não a sua matéria. Ando fatigada de seus pensamentos, de seus dizeres e fazeres. Ando fatigada dessa cidade, de não ter o que fazer. E ando ainda mais fatigada de estar fatigada. Quero sair por aí, fazer qualquer coisa, apenas me divertir. "Encontre-me" gritou desesperada. Mas não, não irei ao seu encontro. E ao encontro de ninguém, não. Entendam, cansei. 
Esses dias ainda, não me lembro bem ao certo quando, mas lembro que era noite. Levantei de minha cama, caminhei pelo corredor, que no momento parecia ser longo, longo... Fui até a porta, e abri. Mas abri com cuidado, para não fazer barulho. Convenhamos que a pior coisa é você querer ficar sozinho no meio da noite, e de repente fazer algum barulho ou derrubar alguma coisa e ser incomodado com passos apressados perguntando -o-que-foi-que-aconteceu-e-por-que-você-esta-acordado-a-uma-hora-dessas. Então, devo ter demorado mais que de costume para abrir a porta, já que era uma dessas que rangem. Mas não rangeu, para minha sorte. Então saí para fora, um pouco incomodada com a luz da sacada, mas admito que não me dei por conta de apagá-la. Então fiquei para fora, na luz da sacada, e olhei para cima. Algumas estrelas estavam brilhando, me lembrei de como fazia tempo que eu não saia para fora no meio da noite olhar as estrelas. E tão bom sair para fora tomar um ar quando sua casa já é um lugar sufocador. Não queria sair dali, apesar de saber que não poderia ficar muito tempo pois algum barulho foi capitado por meus ouvidos e também queria sair logo dali antes que aparecesse alguém. Resolvi sentar um pouco, assim, no chão mesmo. Tenho fascinação por sentar no chão, mas muitas veze sento no sofá -perto de gente- para não ficarem me chateando com -não-fique-no-chão-temos-sofá-aqui-em-casa. Sentei no chão, então. E fiquei olhando para cima, tendo as vezes que baixar um pouco o pescoço, pois essa tinha sido uma semana puxada, meu corpo doía. Fiquei olhando, olhando, tentando me lembrar quando foi mesmo que parei de observar o céu. No fim, não me lembrei, mas parecia ter sido à tanto tempo... Me peguei pronunciando tais palavras: "Deus, aonde que foi parar minha alegria?". Acabei me sentindo muito tola por estar pensando naquelas palavras, senti vergonha porque -tem-tanta-gente-no-mundo-em-estados-piores e de repente, o que tenho a ver com isso? Sim, eu sabia que tinha tanta gente sem casa comida luz bebida e... Mas eu realmente estava falando e sentindo essas palavras. Preciso me divertir, preciso sair, era tudo o que eu sabia que eu tinha que fazer se não poderia explodir. E naquele momento, era certo que uma pessoa poderia explodir apenas por estar com sentimentos, pensamentos e ideias congestionadas. Então, era isso: eu precisava me divertir mais!
E de repente, outro estalido, lembrei de voltar para a cama. Não queria acordar ninguém. Mas e o que fazer com esse sufoco? Preciso, preciso, preciso sair. Parece que estou presa em alguma coisa que não me deixa sair dessa cidade porque eu-não-te-deixo-sair. Toda essa falta de liberdade estava cortando meu ar, e acabo por criar um profundo nojo. Pelas pessoas que não me deixam sair, pela cidade. Ah, como eu queria ter um par te asas. Mas não, eu não tinha. Não era possível ter uma,algum dia. E essas impossibilidades também me matavam por dentro. Como eu queria arrancar esses -im. E involuntariamente eu ia tomando nojo, ou talvez não nojo, mas não saberia dizer ao certo o que. Mas eu ia tomando alguma-coisa em relação a tudo. 
E sim, eu sentia falta de alguma coisa dentro de mim mesma que acabou perdendo-se, ou, quem sabe, eu só não conseguia mais enxergar. Foi aí que senti uma tremenda necessidade de enxergar. Essa coisa. Enxergar o mundo. Pudera eu entender que o mundo me esperava, e eu não ia. Decidi por ir. Talvez eu não volte. O mundo me espera, e assim alguma coisa dentro de mim retornou a acender. Era só esperar, mesmo sabendo que não teria muito tempo para esperar. Decidi por ir, apenas ir. E agora pelas linhas flutuantes do pensamento eu vou, eu voo, saio de mim. A corda já foi amarrada, preciso dar um jeito antes que eu acabe sufocada. Com a corda. Com a cidade. 
"Você vai dar um jeito" ecoou ela -a voz- dentro de minha cabeça. E sim, eu daria um jeito! 


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As coisas podem perder sua forma bonita com o passar do tempo.


Um dia você vai acordar e ver que as coisas já não são mais as mesmas. Vai perceber que já não conhece algumas pessoas. Um dia você vai acordar e sentir que te apunhalaram pelas costas. Sua boca poderá ficar amarga, sua cabeça poderá girar e sentirá um enjôo subindo pelo seu esôfago. O mundo colorido poderá ficar preto, mas apenas por alguns minutos. Deixe que tudo venha a tona, deixe que o seu estomago se rasgue, as ações te firam, as palavras te enganem, deixe que venha a sensação de estar tudo de cabeça para baixo. Deixe. Só por alguns minutos. Depois se reerga, segure-se no seu ponto mais firme, você se conhece. Tudo ao seu redor pode parecer falso. As pessoas que mais conviviam contigo podem parecer falsas. Mas se refaça. Levante e encare, não deixe que eles tirem o que há de melhor em você.


Não há fatos eternos, como não há verdade absolutas."
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Não podemos mais arriscar uma tragédia

As vezes quando você sabe que se encontrar com aquela pessoa, fará todos os sentimentos voltarem, o melhor que você pode fazer é correr e fugir. Mas por favor, não me entenda mal! Eu só corri para que tudo ficasse bem. É melhor não arriscar uma tragédia, do que enfrentar sabendo que ainda não esta forte o suficiente. 
Então, eu não chamarei mais por nomes. Não gritarei mais por alguém. Talvez esse tempo sozinho, que todos nós já fomos obrigados a ter alguma vez na vida, seja realmente o que precisamos. Não arriscaremos mais relações vazias. Quando for para ser, quando for para vir, que venha afável. Que venha quente, que venha romântica, mas não ardente. Dessas paixões ardentes eu quero passar longe, Deus. O fogo que queima nunca é o fogo que nos fortalece. Eu não me importo, esperarei até o momento certo, até o meu momento certo. 


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Drama Daquele Que Vive Só

     Inquieto, remexia-se na cama. Incomodado, esticou o braço para fora a procura do interruptor. Aos poucos seus olhos iam acostumando-se com a luz amarelada vinda do abajur. Olhou em volta procurando pelo relógio, e viu que só passara uma hora após ter deitado. Sonolento, levantou-se e caminhou até a janela, pensando em como não conseguia dormir a dias. No começo, não conseguia pensar em uma razão para sua insônia. Já tentará tomar chá, leite quente, dormir mais cedo, dormir mais tarde, tomar pílula, tentou todas as maneiras mais conhecidas para tentar ter uma noite de sono tranquilo. Mas nada, remexia-se inquieto toda noite, tentava de um lado, depois virava para outro, e de repente acabava levantando, vagando por seu quarto a noite toda. Olhou seu rosto no espelho e viu sinais de olheiras. Precisava tomar uma medida! 
     De repente, como um possível sinal de sua insônia, olhou para sua cama, vazia e com lençóis revirados. Sentiu que estava caindo na realidade, e foi tomado por uma pequena dor de cabeça. Estava só. Todos tinham razão, estava realmente só. E como doía a solidão... Por tantos meses insistia em afirmar que estava bem assim, que isso não o incomodava, mas estava ali, todas as noites, a procura de alguém para abraçar no espaço vazio que sobrava de sua cama. Como pesava estar sozinho. Não desses pesos de quando estamos cheios de problemas. Era um peso vazio. Talvez tudo o que estivesse procurando fosse somente isso: alguém!
     Entretanto, seus dias eram cheios, seu coração estava fechado e a cada ameaça de aproximação, prendia-se em seu mundo. Fechava-se para todos. Quem saberia explicar o motivo... Talvez fosse medo, ou desolação, ou podia até mesmo ser uma barreira, uma forma de autodefesa. O fato é que nem ele mesmo poderia nos dizer. Estava tão desconhecido de si mesmo, quanto estava para todos os que o viam, assim, de longe. Precisava mudar, dizia para si mesmo enquanto caminhava pelo quarto. Precisava dar espaço a novas pessoas, novos romances, ou lances, ou como quer que chamassem - ou ele mesmo chamasse. O problema, é que todos sabemos, do quanto que é difícil sair de nosso casulo para enfrentar a vida aqui fora. E o maior problema ainda, ele sabia, era de como isso realmente é preciso se quisermos ter alguém a quem abraçar na cama enquanto dormimos. 
     Ele, assim como eu, não queria mais sofrer de insônia. Mas como poder afirmar que no dia de amanhã, as coisas não serão tão iguais como as de hoje? Levamos tempo para entendermos o que realmente nos falta, e mais tempo ainda até conseguirmos tê-la. E entendê-la. E mudar!

sábado, 2 de julho de 2011

Who I am? What I want?

Estou passando por uma fase difícil, entre saber "quem eu sou?" e "o que eu quero?". Essa fase transmutada da escolha de personalidade e de sonhos que tanto almejo alcançar. Sinto-me um pouco dividida, metade para cada lado, entre ser e não ser tal coisa. Porque decidir o que queremos talvez seja mesmo meio embaraçoso, saber escolher e descartar. Chamaria isso de transtorno-de-personalidade-mal-resolvida-entre-tantas-outras-coisas. Porque sinto que não posso ser duas coisas ao mesmo tempo, e minha cara metade branca e metade preta mistura-se em um cinza obscuro sabor não-sei-quem-sou. Não sei também se isso é só comigo, algum tipo de problema não resolvido ou se já aconteceu com você também. Mas dentre essas mais confusas escolhas, dificuldades e subestimação, vou seguindo, cantando, caminhando e dançando, até encontrar a rota com que mais me identifico. Porque escolher ser de um jeito inimaginável deve ser realmente difícil. 


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Abra a mente!

“Nas pregações religiosas o ato homossexual é propagado como coisa abominável - interpretação literal de textos milenares, escritos por quem pertenceu a uma civilização extinta e pouco ou nada mais tem a ver com nosso tempo. Por mais que as igrejas esclareçam que são contra qualquer ato de violência contra os gays, na prática, a mensagem que fica é de que o ato homossexual deve ser evitado e é abominável, errado, condenável, indesejável, passível de punição. A mensagem principal é tão forte e tão identificada com os preconceitos, que reforça a convicção da maioria pouco afeita à reflexão de que o homossexual é um ser indesejável e que não faria mal se ele não existisse ou que, no mínimo, ele não se manifestasse (eliminar homossexuais foi e é prática corriqueira entre inquisidores, nazistas, e aiatolás). A mensagem da rejeição é tão forte que as igrejas mais sérias correm para ressalvar que os gays, embora errados em seus atos, devem ser amados. Dizem isso, de olhos arregalados, para evitar que a turba cometa linchamentos. Então, o comportamento dos ilibados justiceiros pode ir, dependendo do grau de “compaixão”, da simples cara feia diante de uma manifestação de afeto, ao assassinato (há sim pessoas decentes, incluindo crianças e adolescentes, que são mortas apenas por serem gays), passando por insultos, intimidações, ameaças e todo tipo de agressão física. Gays são agredidos pelos mesmos motivos que os heterossexuais, mas também o são porque são gays. Acredito que seja necessário fazer algo para evitar que pessoas sejam discriminadas ou violentadas por sua aparência ou orientação sexual ou por manifestarem afeto publicamente. Imagino, porém, que a educação e o esclarecimento à luz do melhor e mais evoluído pensamento filosófico e científico prepararia os homens para a convivência livre, harmoniosa e respeitosa. O obscurantismo pode levar ao acirramento das diferenças, à violência e ao sofrimento.
As igrejas têm grande poder e exercem enorme influência sobre o povo. Acho que elas deveriam atualizar seu pensamento, ressaltar o que pode haver de positivo nos homens e não se apegar a tradições que acabam por separar as pessoas entre supostamente bons e maus, supostamente certos e errados. É o que acabam por fazer quando insistem em propagar textos negativos e obscuros. De alguma forma, talvez subliminarmente, dão legitimidade a atos discriminatórios e à violência contra os homossexuais. A liberdade de expressão religiosa deve ter sim algum limite apropriado para o nosso tempo e momento civilizatório. Se assim não for, qualquer religioso poderia conclamar seu rebanho à discriminação dos judeus por terem matado Jesus. Ou à execração dos gentios, negros ou quem quer que seja simplesmente porque, a seu ver, isso está escrito. Acho que a liberdade religiosa indiscriminada, sem limites, pode provocar aberrações, como as que ainda ocorrem no país mais rico do mundo. Creio que as religiões deveriam se concentrar na essência mais simples e nobre de seus fundadores que, no caso do Cristianismo, é simplesmente o amor incondicional, sem julgamento ou condenação.” 

E ainda há pessoas que preferem ver gente matando, roubando e espancando a ver um casal gay. Por favor, abra a sua mente! Só isso. Porque ser gay não é uma escolha, e ninguém deve ser reprimido pela sua forma de amar. É apenas amor. Não estamos fazendo nada de errado. Se você ainda for homofóbico, eu sugiro que deixe de cer cego e abra os olhos ao seu redor, e use seu cérebro para alguma coisa. Para dizer não a homofobia. "Reveja seus conceitos ou morra com essa sua mente de 2cm²." 
Porque só queremos ser livres para poder amar!