sábado, 2 de outubro de 2010

Incrédulo amor

     São 06:10 minutos.Pensamentos atordoados assediam uma mente ignorando o acesso ao sono. Ele tenta, luta contra eles, de nada adianta. O dia irá clarear lá fora dentro de alguns instantes e visualiza o lençol desprendido do colchão, o buraco feito do travesseiro e as manchas pretas no teto. Discos de Vinil espalhados ao lado da cama e um vidro de champagne vazio em cima da escrivaninha. A noite anterior fora de completo exaustão.
     Estava ele ouvindo Beethoven enquanto escrevia cartas de amor a sua amada, que o abandonara em uma noite fria e tempestiva a caminho do avião que a levaria embora para sempre. Inglaterra. Recorda-se como se estivesse ocorrido hoje. Ela deixará-o um bilhete pedindo que a esperasse na estação de trem no momento em que sairia do serviço sem saber o terror que o esperava. Desembarcou com suas malas feitas, dizia ter somente meia hora e explicou-lhe a oferta que lhe fora oferecida no exterior. Estava deixando-o. Ele, perplexo, ouvia a todo silêncio. "Não pedirei licença de partir, eu o amo, mas minha vida toda esta lá fora.", recorda-se de cada palavra. Então com um beijo, em um ultimo adeus, a viu embarcar num táxi e partir para o avião, aquele avião que levaria sua amada para longe.
     Então, a campainha tocou. Olhou no olho mágico, não acreditou no que viu. Lá estava Florence, uma ex paixão. Uma daquelas paixões de arder que acaba logo nos primeiros meses. Mais um toque da campainha,  impaciente. Caminhou até a escrivaninha, pegou as chaves que estavam ao lado da carta, abriu a porta. Florence, como estava bonita. Os cabelos, antes negros e enrolados, agora lisos e ruivos. Vestia uma blusa vermelha decotada, uma mini saia e sapatos altos. Pode-se notar que havia bebido, e trazia uma garrafa de champagne na mão. Perturbado, convidou-a a entrar. Bebeu grandes goles de champagne enquanto conversavam, ela com a fala enrolada, e aos poucos a garrafa esvaziava.
     Estava ele evasivo demais para fazer alguma coisa enquanto aquela mulher, sua ex paixão, jogava-se aos seus braços. Beijava-a sem tirar os pensamentos de sua amada, Cristalline. Por alguns momentos chegou a achar que estava vendo miragens de que era sua amada ali, aos alcances dos seus braços esperando para ser amada. Sentia-se muito confuso e não conseguia raciocinar direito.
     Acordou algumas horas depois, com aquela estranha (preferiu referir-se assim) vestindo-se para ir embora. Fechou os olhos, ouviu o barulho do abrir e depois fechar de porta. Ali permaneceu, calado, inseguro.
Depois de várias tentativas de dormir, levantou-se e dirigiu-se a sua escrivaninha. Pegou a carta inacabada, acrescentou apenas umas três ou quatro palavras e então guardou-a no bolso do jeans preto que vestia. Saiu madrugada a fora, raios de sol batiam em seu rosto manchado. E ali estava aquele homem, passando pela rua 30 em direção ao correio. Passou com marcas de lágrimas, e então fora.

    

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