domingo, 18 de dezembro de 2011

Despista-se

Os meus olhos não podem ver os seus, nem os dela, nem os do mundo. A visão esta tremida e a janela embaçada. Tudo o que me provara até agora, foi tudo o que eu não podia ouvir. Sinto ter chegado até aqui, e notado que ainda há algo dentro de mim prestes a explodir. Mas a vida é assim menina, aprenda a deixar o desnecessário para trás. Não importa quantos anos se passem, um dia você ainda verá que nem todas as barreiras foram  destruídas. Algumas foram apenas puladas. E é preciso que você volte, que todos nós voltamos, para mais uma vez tentarmos derruba-las. Algumas tempestades sempre acabam estando de volta, e nós temos que nos manter de pé. Eu tenho que me manter em pé, porque um dia eu prometi a mim mesma que nada mais me derrubaria. Mas sempre derruba, menina. Quero que você aprenda isso. Tudo o que foi dito a um tempo atrás, ecoa por todas nossas vidas atrás de nós. Esse é o poço sem fim de nossas vidas. Não há nada que possa calar, a voz que corre atrás de nós sempre alcança. Assim aprendemos um novo meio de despista-la, até a próxima. Porque nada pode ser mudado depois que o trajeto já foi traçado, nós apenas precisamos aprender a conviver com uma coisa dentro de nossas mentes: a falha. Mas a falha também fortalece. Mesmo que, muitas vezes, da forma errada. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O ultimo bom-bom


     Caminhava de um lado para outro, pelos corredores. A noite vinha caindo, e nada a despertava do seu anseio. Tudo ao redor era de um extremo silêncio. Por hora, resolveu sentar-se a uma poltrona, encostada ao fim do corredor, onde o caminho dava para a sala de estar. Quieta, olhou os móveis de soslaio. O balcão, com seus livros em cima, os sofás e abajures ligados, os lustres, tapetes, mesinhas de canto, todos possuindo os aspectos mais antigos. Ah, como adorava móveis antigos. Sentia uma curiosidade por tudo que pertencera à época das suas avós e bisavós. Os discos, os quadros, as cortinas já envelhecidas pelo tempo. Não podemos esquecer-nos de mencionar o lindo piano preto, discretamente colocado ao fundo da sala. E olhava tudo, quando suspirou.
    De repente, seus olhos chegaram a uma pequena caixinha, disposta ao lado do telefone, numa das milhares mesinhas de canto. Lembrara-se de sua infância, lembrara-se do dia passado. Levantou-se se dirigindo ao tocador de discos, de onde começou a soar as mais belíssimas melodias de Mozart. Caminhava pela sala, no mais suave dos passos. Sua mente foi viajando no tempo, enquanto voltava a fitar aquela caixinha de porcelana.
     Antigamente, era cheia de pequenos bom-bons nos mais variados sabores. Um para cada dia. Cada um, para cada humor. Os recheados de morango, para os dias mais doces da sua vida. Os de chocolate, para quando estivesse alegre. E os de maracujá serviam para quando algo triste ou terrivelmente melancólico tivesse acontecido, e jamais perderia as esperanças. Esses eram os que ela mais comia, diga-se por que.
Quando pequena, perdera o pai para uma terrível guerra. Teria ela em torno dos sete anos. Nunca entendera o motivo de seu pai deixar a família para segurar em uma arma, junto com milhares de outros homens sangrentos. Pobre menininha, tão jovem e inocente, pudera jamais querer conhecer os males do mundo. A partir daquele dia, então, vivia só com sua mãe e seu irmão mais novo. Os anos foram passando tranquilamente, enquanto a menina crescia. Quanto tinha de dezesseis para dezessete anos, outro male veio a atingir seu coração: a mãe adoecera. Jovem, viu-se na obrigação de cuidar do seu irmãozinho. Nessa época, foi contratada uma governanta para ajudar a cuidar da família. Era uma ótima pessoa, fazia todo o trabalho pesado dentro e fora da casa, dando descansos para a nossa menina, também a dando aulas de piano, durante todas as noites. E um ano depois, a mãe acabara de morrer. O luto foi grande, a menina sentiu-se perdida em um mundo grande e estranho, o qual não queria conhecer. Nessa fase, o irmão já havia crescido o suficiente, e agora era a governanta quem mais o cuidava. Foi nessa mesma época, que a menina comprou a caixinha de porcelana, enquanto visitam uma feira que se instalou na cidade por um mês. Então, começou a sua mania pelos bom-bons. Não é necessário dizer que desde esse momento, ela comia mais os de maracujá. A cada dia que acordava.
     Os dias eram quase os mesmos, sempre nas mesmas rotinas. A menina acordava, saia para os seus afazeres, depois que o relógio batia meia-hora, ela dirigia-se a caixa de bom-bom. Na maioria dos dias, no seu tempo livre, corria para debaixo de uma das árvores do pátio e lia um livro. Mais tarde, ela, a governanta e o irmão reuniam-se, e inventavam alguma brincadeira. À noite, era sua aula de piano. Melhorava a cada dia, tornando-se uma grande pianista. E assim seus dias foram caindo na rotina. Porém, em uma manhã, ela levantou e ouviu vozes estranhas vindas de fora. Como não eram habituados a visitas rotineiras, sentiu um pouco de medo e ansiedade. Vestiu-se e correu para fora, onde encontrou um belo rapaz, com boas vestimentas, conversando com a governanta, que naquele meio tempo, já se tornara uma amiga familiar. O rapaz trazia a notícia de que a jovem e o menino ainda tinham mais um familiar vivo. Um senhor de terras, que dizia ser seu avô. Como era de se esperar, a governanta teve um choque. Era quase impossível, sendo que eles jamais souberam da existência desse senhor. Mas era uma história de família muito complicada. A vida sempre surpreende. Esse senhor desejava vê-los, pagando a viajem até sua casa, duas cidades depois de onde eles estavam, e onde era para eles morarem. A surpresa foi grande, mas a nossa menina e seu irmão foram. Porém, houve uma série de despedidas da governanta, já que eles jamais se veriam novamente.
     Os anos foram passando, e agora comia mais bom-bons de chocolate. Já se tornara uma grande pianista, e seu irmão estava entrando para a escola. Dias calmos e serenos, eram a vida da menina. Saia para passear a cada fim de semana, e quando dava, tocava em algum evento quando chamada. Seu avô era um homem carinhoso, dava tudo o que eles precisavam. A vida para a menina tornava-se cada vez mais feliz, e ela já nem lembrava mais dos males que a tinham atingido. Vez em quando, sentia uma tremenda falta do lugar onde crescera, mas não mais desejaria voltar para lá. Era o que pensava.

     Mas, outro dia terrível teve que chegar para ela. Como era de se esperar, seu avô acabou falecendo, deixando a casa para os dois morarem. A jovem tinha vinte anos agora, e seu irmão, quatorze. Foi com muita dor, que os dois o enterraram. A adorável jovem sentiu-se mais uma vez desamparada, tendo um peso vazio dentro do seu olhar. Sua força era seu irmão. E como a vida fora cruel com ela...No mesmo ano, seu irmão acabou pegando uma das piores febres já vistas, e nenhum medicamento foi capaz de salvá-lo. O mundo ficou preto, seus olhos já não tinham mais brilho. Sentia uma tremenda falta de tudo. Sentia falta da sua infância, o melhor momento de sua vida. Decidiu ir visitar sua antiga casa, que ainda estava com todos os móveis no lugar. Levou consigo apenas a pequena caixa, deixando-a no lugar inicial. Andou por cada milímetro, chorando pouco as vezes.

     Por fim, sentiu medo. Mas de que? Agora, não teria mais nada para perder, por ironia do destino. Estava sozinha, e por mais que doesse a perda, ela sentia um alívio perturbador. Só o que possuía agora era a própria vida, que em um sopro, poderia se esvair. Naquele dia, ficaria na antiga casa. Então caminhou até a caixa de bom-bom, tirou o ultimo sabor, de maracujá, e pôs-se a sentar no sofá. 

Com um sorriso melancólico no rosto, acabou adormecendo.









domingo, 11 de dezembro de 2011

Amélias


Após muito, muito tempo, ela mergulhou em um mar infinito de aventuras e desilusões e realmente sentiu-se livre, tocável, e inalcançável. Amélia recusou-se a somente contemplar a vida da janela do seu quarto. As flores amarelas pareciam viver muito, muito bem, como se o tempo nem existisse. Mas ela desligou-se da sua beleza e energia extremamente agradáveis. Resolveu pousar sua magia em um mundo que realmente estava precisando dela. E dizia assim, por saber, que as cores lá fora estariam desaparecendo. Uma reconstrução, e ela passou a espalhar ao vento tudo aquilo que estava faltando: cores. E a vida revigorara, e o coração de Amélia enchia-se de um brilho peculiar, que a tal ponto, foi tornando possível amar de novo. E conhecer, todos novamente. Como num sopro de paixão, a vida se tornara agradável. Ao menos, naquele dia. Pois aquele dia, em si só, era especial. Era o dia em que Amélia reconhecer-se-ia não mais somente como alguém desse planeta, mas sim como alguém possível de mudá-lo. Porque naquele fim de tarde, ela apenas sobrevoou a cidade inteira, dentro daquelas pequenas flores amarelas, e sentiu-se importante. Mesmo na mais discreta interrupção, Amélia sentia-se a parte toda de um todo. E tudo refloresceu. 


sábado, 8 de outubro de 2011

Suavidade

Chego a pensar que o meu "tudo bem" já esta no automático. "Tudo bem?", estou bem! Penso sempre que daqui a pouco melhora. Já não tem mais motivos para ficar se lamentando. Devagar eu vou indo, esta tudo bem, afirmo. Daqui a pouco melhora, se acalma, daqui a pouco passa. E realmente passa. Tem vezes que passa tanto, que nem parece que algum dia tive alguma dor. Noutros dias, tudo o que sinto é plano. Já não tão baixo, nem tão alto. Mas daqui a pouco passa. Olhar pela janela e sentir esse vento suave no rosto, realmente me faz acreditar que um dia tudo isso passará. E tudo o que restar, vai ser puro. 


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Estrela Sumida

Ando fatigada. É só. Ando fatigada de algumas pessoas. "Tudo bem, isso é normal, também estou", disse-me ela. Mas não, não são as pessoas o problema. Não a sua matéria. Ando fatigada de seus pensamentos, de seus dizeres e fazeres. Ando fatigada dessa cidade, de não ter o que fazer. E ando ainda mais fatigada de estar fatigada. Quero sair por aí, fazer qualquer coisa, apenas me divertir. "Encontre-me" gritou desesperada. Mas não, não irei ao seu encontro. E ao encontro de ninguém, não. Entendam, cansei. 
Esses dias ainda, não me lembro bem ao certo quando, mas lembro que era noite. Levantei de minha cama, caminhei pelo corredor, que no momento parecia ser longo, longo... Fui até a porta, e abri. Mas abri com cuidado, para não fazer barulho. Convenhamos que a pior coisa é você querer ficar sozinho no meio da noite, e de repente fazer algum barulho ou derrubar alguma coisa e ser incomodado com passos apressados perguntando -o-que-foi-que-aconteceu-e-por-que-você-esta-acordado-a-uma-hora-dessas. Então, devo ter demorado mais que de costume para abrir a porta, já que era uma dessas que rangem. Mas não rangeu, para minha sorte. Então saí para fora, um pouco incomodada com a luz da sacada, mas admito que não me dei por conta de apagá-la. Então fiquei para fora, na luz da sacada, e olhei para cima. Algumas estrelas estavam brilhando, me lembrei de como fazia tempo que eu não saia para fora no meio da noite olhar as estrelas. E tão bom sair para fora tomar um ar quando sua casa já é um lugar sufocador. Não queria sair dali, apesar de saber que não poderia ficar muito tempo pois algum barulho foi capitado por meus ouvidos e também queria sair logo dali antes que aparecesse alguém. Resolvi sentar um pouco, assim, no chão mesmo. Tenho fascinação por sentar no chão, mas muitas veze sento no sofá -perto de gente- para não ficarem me chateando com -não-fique-no-chão-temos-sofá-aqui-em-casa. Sentei no chão, então. E fiquei olhando para cima, tendo as vezes que baixar um pouco o pescoço, pois essa tinha sido uma semana puxada, meu corpo doía. Fiquei olhando, olhando, tentando me lembrar quando foi mesmo que parei de observar o céu. No fim, não me lembrei, mas parecia ter sido à tanto tempo... Me peguei pronunciando tais palavras: "Deus, aonde que foi parar minha alegria?". Acabei me sentindo muito tola por estar pensando naquelas palavras, senti vergonha porque -tem-tanta-gente-no-mundo-em-estados-piores e de repente, o que tenho a ver com isso? Sim, eu sabia que tinha tanta gente sem casa comida luz bebida e... Mas eu realmente estava falando e sentindo essas palavras. Preciso me divertir, preciso sair, era tudo o que eu sabia que eu tinha que fazer se não poderia explodir. E naquele momento, era certo que uma pessoa poderia explodir apenas por estar com sentimentos, pensamentos e ideias congestionadas. Então, era isso: eu precisava me divertir mais!
E de repente, outro estalido, lembrei de voltar para a cama. Não queria acordar ninguém. Mas e o que fazer com esse sufoco? Preciso, preciso, preciso sair. Parece que estou presa em alguma coisa que não me deixa sair dessa cidade porque eu-não-te-deixo-sair. Toda essa falta de liberdade estava cortando meu ar, e acabo por criar um profundo nojo. Pelas pessoas que não me deixam sair, pela cidade. Ah, como eu queria ter um par te asas. Mas não, eu não tinha. Não era possível ter uma,algum dia. E essas impossibilidades também me matavam por dentro. Como eu queria arrancar esses -im. E involuntariamente eu ia tomando nojo, ou talvez não nojo, mas não saberia dizer ao certo o que. Mas eu ia tomando alguma-coisa em relação a tudo. 
E sim, eu sentia falta de alguma coisa dentro de mim mesma que acabou perdendo-se, ou, quem sabe, eu só não conseguia mais enxergar. Foi aí que senti uma tremenda necessidade de enxergar. Essa coisa. Enxergar o mundo. Pudera eu entender que o mundo me esperava, e eu não ia. Decidi por ir. Talvez eu não volte. O mundo me espera, e assim alguma coisa dentro de mim retornou a acender. Era só esperar, mesmo sabendo que não teria muito tempo para esperar. Decidi por ir, apenas ir. E agora pelas linhas flutuantes do pensamento eu vou, eu voo, saio de mim. A corda já foi amarrada, preciso dar um jeito antes que eu acabe sufocada. Com a corda. Com a cidade. 
"Você vai dar um jeito" ecoou ela -a voz- dentro de minha cabeça. E sim, eu daria um jeito! 


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

As coisas podem perder sua forma bonita com o passar do tempo.


Um dia você vai acordar e ver que as coisas já não são mais as mesmas. Vai perceber que já não conhece algumas pessoas. Um dia você vai acordar e sentir que te apunhalaram pelas costas. Sua boca poderá ficar amarga, sua cabeça poderá girar e sentirá um enjôo subindo pelo seu esôfago. O mundo colorido poderá ficar preto, mas apenas por alguns minutos. Deixe que tudo venha a tona, deixe que o seu estomago se rasgue, as ações te firam, as palavras te enganem, deixe que venha a sensação de estar tudo de cabeça para baixo. Deixe. Só por alguns minutos. Depois se reerga, segure-se no seu ponto mais firme, você se conhece. Tudo ao seu redor pode parecer falso. As pessoas que mais conviviam contigo podem parecer falsas. Mas se refaça. Levante e encare, não deixe que eles tirem o que há de melhor em você.


Não há fatos eternos, como não há verdade absolutas."
Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Não podemos mais arriscar uma tragédia

As vezes quando você sabe que se encontrar com aquela pessoa, fará todos os sentimentos voltarem, o melhor que você pode fazer é correr e fugir. Mas por favor, não me entenda mal! Eu só corri para que tudo ficasse bem. É melhor não arriscar uma tragédia, do que enfrentar sabendo que ainda não esta forte o suficiente. 
Então, eu não chamarei mais por nomes. Não gritarei mais por alguém. Talvez esse tempo sozinho, que todos nós já fomos obrigados a ter alguma vez na vida, seja realmente o que precisamos. Não arriscaremos mais relações vazias. Quando for para ser, quando for para vir, que venha afável. Que venha quente, que venha romântica, mas não ardente. Dessas paixões ardentes eu quero passar longe, Deus. O fogo que queima nunca é o fogo que nos fortalece. Eu não me importo, esperarei até o momento certo, até o meu momento certo. 


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Drama Daquele Que Vive Só

     Inquieto, remexia-se na cama. Incomodado, esticou o braço para fora a procura do interruptor. Aos poucos seus olhos iam acostumando-se com a luz amarelada vinda do abajur. Olhou em volta procurando pelo relógio, e viu que só passara uma hora após ter deitado. Sonolento, levantou-se e caminhou até a janela, pensando em como não conseguia dormir a dias. No começo, não conseguia pensar em uma razão para sua insônia. Já tentará tomar chá, leite quente, dormir mais cedo, dormir mais tarde, tomar pílula, tentou todas as maneiras mais conhecidas para tentar ter uma noite de sono tranquilo. Mas nada, remexia-se inquieto toda noite, tentava de um lado, depois virava para outro, e de repente acabava levantando, vagando por seu quarto a noite toda. Olhou seu rosto no espelho e viu sinais de olheiras. Precisava tomar uma medida! 
     De repente, como um possível sinal de sua insônia, olhou para sua cama, vazia e com lençóis revirados. Sentiu que estava caindo na realidade, e foi tomado por uma pequena dor de cabeça. Estava só. Todos tinham razão, estava realmente só. E como doía a solidão... Por tantos meses insistia em afirmar que estava bem assim, que isso não o incomodava, mas estava ali, todas as noites, a procura de alguém para abraçar no espaço vazio que sobrava de sua cama. Como pesava estar sozinho. Não desses pesos de quando estamos cheios de problemas. Era um peso vazio. Talvez tudo o que estivesse procurando fosse somente isso: alguém!
     Entretanto, seus dias eram cheios, seu coração estava fechado e a cada ameaça de aproximação, prendia-se em seu mundo. Fechava-se para todos. Quem saberia explicar o motivo... Talvez fosse medo, ou desolação, ou podia até mesmo ser uma barreira, uma forma de autodefesa. O fato é que nem ele mesmo poderia nos dizer. Estava tão desconhecido de si mesmo, quanto estava para todos os que o viam, assim, de longe. Precisava mudar, dizia para si mesmo enquanto caminhava pelo quarto. Precisava dar espaço a novas pessoas, novos romances, ou lances, ou como quer que chamassem - ou ele mesmo chamasse. O problema, é que todos sabemos, do quanto que é difícil sair de nosso casulo para enfrentar a vida aqui fora. E o maior problema ainda, ele sabia, era de como isso realmente é preciso se quisermos ter alguém a quem abraçar na cama enquanto dormimos. 
     Ele, assim como eu, não queria mais sofrer de insônia. Mas como poder afirmar que no dia de amanhã, as coisas não serão tão iguais como as de hoje? Levamos tempo para entendermos o que realmente nos falta, e mais tempo ainda até conseguirmos tê-la. E entendê-la. E mudar!

sábado, 2 de julho de 2011

Who I am? What I want?

Estou passando por uma fase difícil, entre saber "quem eu sou?" e "o que eu quero?". Essa fase transmutada da escolha de personalidade e de sonhos que tanto almejo alcançar. Sinto-me um pouco dividida, metade para cada lado, entre ser e não ser tal coisa. Porque decidir o que queremos talvez seja mesmo meio embaraçoso, saber escolher e descartar. Chamaria isso de transtorno-de-personalidade-mal-resolvida-entre-tantas-outras-coisas. Porque sinto que não posso ser duas coisas ao mesmo tempo, e minha cara metade branca e metade preta mistura-se em um cinza obscuro sabor não-sei-quem-sou. Não sei também se isso é só comigo, algum tipo de problema não resolvido ou se já aconteceu com você também. Mas dentre essas mais confusas escolhas, dificuldades e subestimação, vou seguindo, cantando, caminhando e dançando, até encontrar a rota com que mais me identifico. Porque escolher ser de um jeito inimaginável deve ser realmente difícil. 


quinta-feira, 30 de junho de 2011

Abra a mente!

“Nas pregações religiosas o ato homossexual é propagado como coisa abominável - interpretação literal de textos milenares, escritos por quem pertenceu a uma civilização extinta e pouco ou nada mais tem a ver com nosso tempo. Por mais que as igrejas esclareçam que são contra qualquer ato de violência contra os gays, na prática, a mensagem que fica é de que o ato homossexual deve ser evitado e é abominável, errado, condenável, indesejável, passível de punição. A mensagem principal é tão forte e tão identificada com os preconceitos, que reforça a convicção da maioria pouco afeita à reflexão de que o homossexual é um ser indesejável e que não faria mal se ele não existisse ou que, no mínimo, ele não se manifestasse (eliminar homossexuais foi e é prática corriqueira entre inquisidores, nazistas, e aiatolás). A mensagem da rejeição é tão forte que as igrejas mais sérias correm para ressalvar que os gays, embora errados em seus atos, devem ser amados. Dizem isso, de olhos arregalados, para evitar que a turba cometa linchamentos. Então, o comportamento dos ilibados justiceiros pode ir, dependendo do grau de “compaixão”, da simples cara feia diante de uma manifestação de afeto, ao assassinato (há sim pessoas decentes, incluindo crianças e adolescentes, que são mortas apenas por serem gays), passando por insultos, intimidações, ameaças e todo tipo de agressão física. Gays são agredidos pelos mesmos motivos que os heterossexuais, mas também o são porque são gays. Acredito que seja necessário fazer algo para evitar que pessoas sejam discriminadas ou violentadas por sua aparência ou orientação sexual ou por manifestarem afeto publicamente. Imagino, porém, que a educação e o esclarecimento à luz do melhor e mais evoluído pensamento filosófico e científico prepararia os homens para a convivência livre, harmoniosa e respeitosa. O obscurantismo pode levar ao acirramento das diferenças, à violência e ao sofrimento.
As igrejas têm grande poder e exercem enorme influência sobre o povo. Acho que elas deveriam atualizar seu pensamento, ressaltar o que pode haver de positivo nos homens e não se apegar a tradições que acabam por separar as pessoas entre supostamente bons e maus, supostamente certos e errados. É o que acabam por fazer quando insistem em propagar textos negativos e obscuros. De alguma forma, talvez subliminarmente, dão legitimidade a atos discriminatórios e à violência contra os homossexuais. A liberdade de expressão religiosa deve ter sim algum limite apropriado para o nosso tempo e momento civilizatório. Se assim não for, qualquer religioso poderia conclamar seu rebanho à discriminação dos judeus por terem matado Jesus. Ou à execração dos gentios, negros ou quem quer que seja simplesmente porque, a seu ver, isso está escrito. Acho que a liberdade religiosa indiscriminada, sem limites, pode provocar aberrações, como as que ainda ocorrem no país mais rico do mundo. Creio que as religiões deveriam se concentrar na essência mais simples e nobre de seus fundadores que, no caso do Cristianismo, é simplesmente o amor incondicional, sem julgamento ou condenação.” 

E ainda há pessoas que preferem ver gente matando, roubando e espancando a ver um casal gay. Por favor, abra a sua mente! Só isso. Porque ser gay não é uma escolha, e ninguém deve ser reprimido pela sua forma de amar. É apenas amor. Não estamos fazendo nada de errado. Se você ainda for homofóbico, eu sugiro que deixe de cer cego e abra os olhos ao seu redor, e use seu cérebro para alguma coisa. Para dizer não a homofobia. "Reveja seus conceitos ou morra com essa sua mente de 2cm²." 
Porque só queremos ser livres para poder amar! 


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Memórias

A vida segue a barca enquanto vamos perdendo coisas pelo caminho. Um dia, no cair de uma tarde, desenterramos coisas guardadas em uma caixa de papelão. Pessoas e suas histórias. E pensar que de repente toda nossa vida resume-se a cartas antigas, roupas esquecidas e nossa boa memória. Lembrancas dos que não vivem, ou os que ainda vivem, perdidos em algum ponto de nossa estrada, deixados para trás. Resquícios de lugares, numa vaga tentativa de refazer uma vida como em um filme -daqueles bem antigos- onde rebobinasse a fita. Algumas pessoas ainda encontraremos em um dia qualquer, outras nunca mais as vemos. De tudo o que passa, só resta saudades. Mas a fita é longa, faz-se necessário continuar a filmagem. Um dia descobriremos o sentido disso tudo.


sábado, 11 de junho de 2011

L'esprit²

Era uma jovem, cujo destino ninguém saberia - nem mesmo os deuses. Tinha tanto amor, por tudo ao seu redor. Um amor escondido, perdido, desaparecido. Nascia e morria. Recobria. No entanto, olhando de longe, era apenas uma pessoa calma, que dançava ballet clássico e delicia-se ouvindo o som do piano ao lado. Viaja para dentro de uma mente infinita de sonhos e planos. Quem, ao olhar para ela assim, sentada por cima das pernas, mãos no colo e olhar vago apontando para direção alguma, tentaria decifrar seus pensamentos. Impossíveis, até para ela mesma. E de repente surpreenderia-se ao se ver diante de um espelho. Fitaria aqueles pequenos olhos de porcelana, por horas, veria imagens transpassadas com a sua e perderia-se entre as pessoas. Todas aquelas imagens e vozes, passando correndo ao seu redor, umas gritando e outras chorando. Veria. Por fora, nada se vê. Mas dentro do espelho ela entenderia seus desesperos. Olharia para o céu, e novamente para a terra. Ergueria-se e, sustentando aquele seu doce olhar vazio, seguiria seus passos. Os seus passos. E sonharia tudo. Mais uma vez!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Venha

Estou esperando você vir. Venha, venha logo. Venha logo porque você não pode demorar mais que alguns minutos, venha logo porque eu não posso esperar por mais alguns dias. É preciso que você se apresse, para que não percamos todo esse caminho que construímos. Eu preciso que você venha logo, para não precisar mais me afastar de ti. Os dias estão passando e esta ficando cada vez mais difícil ter que te esperar, sentada em uma varanda nesses dias frios de inverno, bebendo um vinho e me perguntando “será que ele vem, ou não vem?”.  Então não é mais possível demorar um dia, uma hora se quer. Chegue logo, venha como vier, de carro, de ônibus, de trem, de avião, ou venha correndo, pedalando, patinando. Mas venha. Venha enquanto eu ainda te espero, sentada nessa varanda que começa a se fechar. Ainda há tempo, mas você precisa correr. 


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pensamentos Noturnos

     Semana passada, eu estava assistindo um reality show musical, e um dos jurados falou ao julgado para ele encontrar sua identidade. Incrível como essas palavras ficaram em minha mente. Encontrar sua identidade... Encontrar minha identidade. De um tempo para cá, venho me sentindo perdida de mim mesma. Como se eu estivesse vivendo para os outros, e não para mim mesma. Então eu devo agradecer àquele jurado, por ter aberto minha mente - por mais que não tenha falado diretamente para mim. 
     Algumas horas antes de dormir, fiquei pensando em minha vida, em como ela esta e como eu gostaria que estivesse. Resolvi mudar. E quando digo mudar, falo de mudar geral mesmo. Mudar o quarto, mudar o cabelo, mudar as atitudes, mudar minha auto-estima, que por sinal, estava um pouco para baixo. Resolvi me dedicar mais aquilo que eu gosto, e ao que me faz bem. Com tudo isso, fui aprofundando mais meus pensamentos, e percebi como algumas coisas andavam erradas. Porque nós vamos fechando a porta, sem perceber, aos poucos na cara de algumas pessoas. Vamos nos restringindo e restringindo a vida dos outros. Precisamos nos doar mais, dar mais, confiar mais. Os erros, as desilusões e os tapas na cara da vida estarão sempre aí. Mas disso, vamos aprendendo a retirar bons frutos com o tempo.
     O mundo esta precisando de mais. Mais compaixão, mais humildade, mais amor, mais sabedoria, mais mentes abertas. Qual valor tem a ignorância e o desprezo, se apenas nos afastam de nossos amigos, amores, familiares? Como diz a nova propaganda da Coca-cola "Os bons são maioria". Ainda há esperança, ainda há lealdade. E enquanto tudo isso existir, o mundo ainda não estará totalmente perdido. Mas por primeiro, precisamos nos tornar essa maioria. O resto vem com o tempo!


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Arrisque

Hoje eu estava andando na rua e parei para perceber quantas pessoas passam por nós, quantas histórias, quantas vidas, e tudo tão calado. A maior parte do tempo não notamos as coisas e suas posições no mundo, deixando tudo passar despercebido. Tantas histórias de vida passam por nós a cada dia, tantas vitórias, tantas esperanças, tantos sorrisos e tantos choros, e medos, e lembranças. Você já parou para pensar que uma entre cem pessoas que passam por você, poderia se tornar alguém especial ou importante demais em sua vida? É só deixar entrar, abrir espaço, acolher. Mas elas passam... E a cada vez que passam, seu tempo diminui. Quando você decide mover a mão para abrir a porta que esta fechada dentro de você, pode ser tarde e a pessoa não estar mais ali, passando do seu lado todos os dias. Então, do que você tem medo? E uma resposta forma-se em minha mente: eu tenho medo do inusitado, medo do que é novo. Porque o novo é desconhecido e você nunca sabe do que esperar dele. Podem ser alegrias, ou decepções. Até podem ser ilusões demais. Mas é preciso deixar entrar, as coisas, as pessoas, e arriscar sem medo. Tudo aquilo que arriscamos, e deixamos ser, é o que trás forma à nossa vida! 


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sorrisos esgotados

São tempos difíceis. O inverno vem chegando, com ele o frio e chuvas tempestivas. E eu não estou bem, e preciso que as pessoas percebam isso. Meus maiores sorrisos são falsos e a falta que sinto de mim mesma é a mais perturbadora. Preciso que as pessoas entendam que isso não é um drama, um desabafo ou um pedido de ajuda. Apenas quero que elas sintam que não estou bem, e parem de me cobrar as coisas. Junho vem chegando, não queria estar sim. Chega um tempo que você cansa de esconder essa tristeza, cansa de arranjar sorrisos tortos em vão, cansa de se esforçar para parecer feliz. Porque algo começa a acontecer com a gente, tão lentamente que nem sentimos, ou vamos tentando esconder que sentimos e acabamos acreditando que estamos bem quando a verdade é que nada esta bem. O problema começa quando a pressão ao seu redor aumenta. Eles vão tirando a nossa capacidade de felicidade fazendo com que sintamos na obrigação de circular a dor, e fazendo com que você engula as lágrimas. Passou tudo tão rápido que não tive como perceber o que me acontecia, e agora não sei como resolver. Eu me esforço, acredite, eu tento pensar ao me deitar que quando acordar o dia será mais bonito e o meu sorriso mais sincero.
 Mas toda vez que sorrio, na verdade eu quero ficar aos prantos e talvez te dizer que não consigo mais fingir, não quero brincar de ser feliz, que talvez minha vida esteja sendo irreal à mais de um mês. Quero te dizer que preciso de teu abraço e que preciso também que me deixe em paz. Ando cansada - mais que tudo- , de mim e dessa minha infelicidade incontrolável. Desse despertar na manhã, tomar café, colocar uma roupa pegar os livros e ir para a escola. Suportar as horas, suportar o dia. Pegar, novamente, os livros e voltar, novamente, para casa. Sentar à mesa e fingir ter tido um ótimo dia, implantar sorrisos melancólicos mais uma vez e tentar ser feliz pelo resto das horas. Mas não existe uma fórmula exata para a felicidade. Na verdade, não existe fórmula exata para nada. E cada vez fica mais difícil... Talvez eu precise de você aqui, precise do seu concerto. Ou talvez eu não precise. Preciso de um lugar novo, pessoas novas, carteiros novos, escola nova, ou dormir e tentar tudo outra vez. Acordar com aquela mesma velha farsa, e brincar de ser feliz.



sexta-feira, 20 de maio de 2011

A instabilidade das coisas no mundo

Noites frias de maio, o ar gelado das ruas entrando pelo vão da janela, e a lareira acesa ao lado. Liguei a TV e comecei a passar os canais, nada prestava. Então deixei em um canal qualquer, apertei o botão "mudo" do controle. Voltei-me para a janela, as luzes dos postes eram os únicos sinais repletos na rua molhada. Fui perdendo-me em meus pensamentos, que me levavam a milhas de distância do presente. Percorri meu passado, meus antepassados, meu futuro e talvez tenha até chegado à minhas outras vidas. Se é que isso tudo seja real. Quem sabe seja apenas um jogo, onde somos testados e feitos de cobaias o tempo todo. Quem poderá negar? Somos humanos,  nossa mente esta ilimitada de imaginações, e nossas buscas estão cada vez mais complexas. Cheguei na era paleontológica e comecei um estudo secreto sobre os dinossauros. Fui tirado de meus pensamentos quando duas pessoas passavam em baixo de minha janela, conversando em tom alto sobre o fim do mundo. Achei um absurdo, afinal, o mundo não acabará baby. Talvez só a humanidade seja extinta daqui alguns milênios, mas o mundo continuará trazendo as formas mais variadas de vida. Afinal, tudo é tão instável... Os dinossauros aqui moraram e se foram. Nós aqui moramos e nos iremos. Nossos amores tocam nosso coração e se vão. Amigos descobrem nossos segredos mais secretos e desaparecem. Um dia queremos uma coisa e outro dia queremos outra coisa. Esse é o ciclo da vida, e o ciclo do mundo. Nada é instável que perdure para sempre. Principalmente em minha vida! E quem sabe na sua também, querido leitor. Idéias, pensamentos, ações, sentimentos, desejos, decisões que mudam a todo momento. Vou ficando neurótica tentando achar um caminho certo. Mas se tudo é incerto... Até nossa existência, então quem diga do resto. Ganhar, perder, achar, partir, chegar, e um medo terrível de não chegar ao esperado. Saí da janela, voltei para mim mesma e falei: o jeito é continuar seguindo! Quem sabe para frente haja uma surpresa. E se for para ser, que seja quente e afável, Deus. 



sábado, 7 de maio de 2011

Com o frio, o gelo

De repente, um nó na garganta. Uma sensação de estar tudo se repetindo, outra e outra vez. Uma vontade de querer chorar o mundo todo para fora. Querer acabar, aos poucos, com tudo o que lhe afligia. As mãos tremiam, a voz não saia, e ela tinha medo. Medo de que as coisas voltassem a ser horríveis como eram. Os dias iam passando e ela percebendo, estava ficando louca mais uma vez. Estava ficando brava com as pessoas, brava com o mundo, tornando-se seca e ignorante. Embora por dentro houvesse amor. Seu sangue fervia, seu coração apertava e seus olhos espremiam-se numa tentativa de expulsar as lágrimas. Apesar de ter todos ao seu redor, sentia-se cada vez mais sozinha. Eu me sentia cada vez mais sozinha. Ela sendo meu contraposto, eu sendo ela. E nós duas -vivendo uma na outra- tornando-nos de pedra. Esperando novamente pelo fogo, destruir o gelo dentro de nós mesmas. Acabar com as nuvens negras acima de nossa mente. Tudo voltou, e cadê o amor? Eu espero ele voltar. Espero poder enxergar novamente as cores. Quem sabe andando por aí a gente não encontra o que nos falta. Então eu continuo, vivendo no mais terrível abismo que é nós mesmos. 


Esperando a volta das flores! 


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Memoirs of War

     Sentada, ela esperava, impaciente, a chegada da primavera. Ao lado, uma caixinha de som tocava Pavarotti, enquanto olhava pela janela. Tudo o que via era somente destruição. O céu estava de um cinza escuro, as horas pareciam ter parado e o vento... O vento carregava a poeira, carregava as memórias. Ouvia vozes, sussurros. Tudo havia desmoronado, as casas agora eram tijolos caídos. As crianças perderam o riso e os postes, a luz. Olhava o quarteirão, como se todas as partículas de ar estivessem paradas, sem vida. Nada movimentava, ninguém ousava dar um passo a mais. Havia somente o vazio.
     Olhava para suas mãos, pálidas. Não se moviam. Seu corpo não se atrevia a fazer algum movimento. Uma lágrima, que tanto andou por seu olho, agora encontrará a saída e descia por seu rosto enrugado. Olhava pela janela, e não via as flores, as árvores, os pássaros, e nem os carros. Sua visão voltava ao passado, voltava ao seu marido, voltava aos seus filhos. 1992! Galhos secos caídos, mães chorando por seus filhos, filhos procurando seus pais. E um clarão. Tudo arrastando-se feito onda, pessoas sendo jogadas ao chão. O fogo já não se via, encoberto por nuvens de fumaça. Corpos sendo enterrados. Ela só procurava a paz. Carregava nos braços seus dois filhos, colocando-os ao lado de seu marido. Uma ultima lágrima foi derramada, antes de partir.
     E suspirou, olhando pela janela. Via crianças sorrindo, árvores balançando. Carros iam e vinham pela longa estrada. Chorou aos poucos, devagarinho, soluçando vez em quando. Levou a mão ao medalhão, pendurado em seu pescoço, e sorriu. Aquele sorriso demorado, que se dá no meio de lágrimas. Fechou os olhos e ficou a ouvir uma canção chamada Miss Sarajevo, na voz grave de Pavarotti. Tudo o que o vento não carregou, foram suas lembranças: uma guerra. Mas no fundo de seus olhos, ainda havia esperança! 





segunda-feira, 18 de abril de 2011

Resquícios de uma vida de curtas memórias

A vida segue a barca enquanto vamos perdendo coisas pelo caminho. Um dia, no cair de uma de tarde, desenterramos coisas guardadas em uma caixa de papelão. Pessoas e suas histórias. E pensar que de repente toda nossa vida resume-se a cartas antigas, roupas esquecidas e nossa boa memória. Lembrancas dos que não vivem, ou os que ainda vivem, perdidos em algum ponto de nossa estrada, deixados para trás. Resquícios de lugares, numa vaga tentativa de refazer uma vida como em um filme -daqueles bem antigos- onde rebobinasse a fita. E o tempo vai passando, a cada minuto mais rápido levando-nos com ele. O tempo também leva aqueles que um dia nós amamos, ou os que já odiamos. O tempo passa, depressa, como se tivesse prazo de validade. A cada ano algumas memórias vão perdendo-se com a chegada da idade. Mas não só a idade faz com que as coisas percam-se no tempo. E a vida? E os rumos que decidimos seguir? Eu paro e olho ao meu redor, enquanto sigo a estrada, muitas vezes sento em uma pedra encontrada pelo caminho e olho para trás. Logo, olho para a frente. Quantas coisas se foram, e quantas ainda haverão de partir... E você, minha jovem, até quando ficará andando ao meu lado? Nossas vidas curvas encurvam-se a cada virar de esquina. O tempo é quem decide!


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um grito de dor

Nesses últimos meses andei tentando esconder a minha solidão com sorrisos forçados e máscaras de plástico. A verdade é que estou me sentindo muito sozinha, e não sei como lhe dizer isso. Minha máscara começou a derreter, e já não consigo mais disfarçar. A algum tempo atrás eu andava tão deprimida, que falaram-me: "Pare de andar de cabeça baixa, erga esse rosto, as pessoas já estão se cansando"; desde então, não sei mais como falar com as pessoas sobre meus sentimentos. Criei um muro de felicidade, -ilusória-, na frente de todos os reais sentimentos, e me esforcei tanto para que esse muro não caísse que hoje ele esta mais alto do que eu possa alcançar. Fiquei para o lado de dentro, e você foi arremessada para o lado de fora. Eu sinto em lhe dizer, que já não tenho mais o que falar. Estou sozinha e não suporto mais esse sofrimento. Preciso de uma mente nova. Um coração novo. Preciso -mais que tudo- de alguém!


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um rastro no mundo

Sou um borrão esquecido, perdido entre as profundezas da Terra. Meu ser caminha a mim mesmo com passos desconhecidos - sou uma estranha perante a mim mesma. Vivi enormes histórias, e no entanto, não lembro mais de alguma. Minha memória foi perdendo-se com o tempo, meus rastros foram ficando para trás, a selva em meu coração, devastada escapou junto com mãos gigantes, retirando pouco a pouco o pouco que me tinha. Giro em uma órbita desorientada, mudando o rumo a cada segundo. Continuo a viver procurando minhas partes esquecidas e outras inventadas. Procuro recomeçar mas não posso fugir desse ímã que me puxa novamente para baixo. Minha realidade mistura-se com fantasias fictícias. Dizer quem sou é perigoso. Para mim e para você. Sou um borrão cumprindo o seu destino, rastejando entre a relva procurando o fim de mim mesma. Mas eu desisti dessa luta pela procura de descobrir o que sou. Contento-me com a vida que passa, envelhecendo a cada minuto. Tudo é um mistério para mim!


Desisti de me esquivar de ser o que sou: um borrão indecifrável!

quarta-feira, 30 de março de 2011

O ultimo sopro

     Com muita pressa, ela corria. Não ligava para a dor em suas pernas, a dor em seus pés e as solas do tênis preto envelhecido. Seus olhos eram de um tom escuro fumegante, a raiva subia cortando-lhe a garganta e terminava em seus olhos. Lágrimas escuras rolavam por seu rosto. A dor em seu peito era profunda.
     A alguns dias vinha sentindo um vazio interminável. O inverno havia chegado mais cedo trazendo consigo seu ar gelado. Fazia muito frio, tanto fora quanto dentro de seu corpo. Tudo o que sentia era o peso do vazio. Em seu coração não havia mais espaço para o amor, para a fé, para a guerra... Para nada! Queria gritar, mas não tinha voz. Apenas corria contra o vento que cortava-lhe a cara.
     A chuva começará a cair, aumentando cada vez mais conforme a velocidade de seus passos. O céu agora era de um tom cinza escuro, chorando em seu rosto. Aquela era uma garota correndo, sozinha e desolada pela multidão. Desejava que alguém a encontra-se, coloca-se seu rosto em seus braços e dissesse que tudo ficaria bem. Faziam anos que não recebia um abraço. Estar sozinha em um mundo gigantesco caía-lhe sobre os ombros, como se carrega-se toneladas de cimento nas costas. Um cimento que endurecia cada vez mais, mostrando uma vida de chegadas e partidas, esvaziando seu coração a cada adeus. Mas ela sabia que todos estavam ocupados demais para ouvirem seus gritos de socorros. Queria parar, descansar, dormir... No entanto, precisava jogar essa dor ao vento. Então, corria, aumentando sua velocidade, corria apesar das gotas pesadas perfurando-lhe o rosto. Corria, sem direção. Corria e gritava. Todas aquelas forças enroladas em sua garganta saiam por sua boca, calando o som estrondoso da chuva. 
     Foi quando me virei e a vi. Uma luz ofuscou-lhe os olhos, e tudo o que ouviu foi o choque de seu corpo contra o caminhão. Paralisei! Ela virou e olhou para meu rosto, do outro lado da rua, e deu seu ultimo suspiro. Ouvi o som abafado de seus gritos! Corri para junto de seu corpo, imóvel. Olhei uma ultima vez para seus olhos castanhos e me vi dentro deles. Foi quando eu soube, que o que eu queria estava ali. Estivera sempre ali, e se foi. Toda a sua dor, passou a ser a minha dor. Eu vivi, relembrando a cada entardecer cinzento daqueles pequenos olhos castanhos. Agora a chuva cobre meu rosto, mostrando-me tudo o que eu vi. Meus pés firmes afundam na terra, enquanto eu choro uma ultima vez!



terça-feira, 29 de março de 2011


Um vídeo para guardar os deliciosos sons de piano comigo! ♥ 

L'esprit

Era uma jovem, cujo destino ninguém saberia - nem mesmo os deuses. Tinha tanto amor, por tudo ao seu redor. Um amor escondido, perdido, desaparecido. Nascia e morria. Recobria. No entanto, olhando de longe, era apenas uma pessoa calma, que dançava ballet clássico e delicia-se ouvindo o som do piano ao lado. Viaja para dentro de uma mente infinita de sonhos e planos. Quem, ao olhar para ela assim, sentada por cima das pernas, mãos no colo e olhar vago apontando para direção alguma, tentaria decifrar seus pensamentos. Impossíveis, até para ela mesma. E de repente surpreenderia-se ao se ver diante de um espelho. Fitaria aqueles pequenos olhos de porcelana, por horas, veria imagens transpassadas com a sua e perderia-se entre as pessoas. Todas aquelas imagens e vozes, passando correndo ao seu redor, umas gritando e outras chorando. Veria. Por fora, nada se vê. Mas dentro do espelho ela entenderia seus desesperos. Olharia para o céu, e novamente para a terra. Ergueria-se e, sustentando aquele seu doce olhar vazio, seguiria seus passos. Os seus passos. E sonharia tudo. Mais uma vez!

E novamente seria apenas mais uma bailarina. 







segunda-feira, 14 de março de 2011

Encruzilhadas

Hoje era um dia frio. Ela estava sozinha, sentada no alto da varanda do seu quarto, com o olhar vago para o mundo. Por alguns instantes, teve a impressão de ver tudo parar. As horas pararam e ela ficou ali, presa aquele momento. Mais que tudo, sentia-se só e perdida em seu próprio reflexo na sociedade. Muitas perguntas passavam por sua cabeça, como "quem eu sou? Por que estou aqui?", e assim ficava, inerte às próprias perguntas sem solução. Procurava, mas ninguém saberia responder. E ninguém saberá a eterna proposta. Então continuava à observar um mundo de preconceitos. E ia, sem saber exatamente para onde, mas ia cumprindo seu destino perante uma sociedade injusta. Quem sabe no fim disso tudo, haveria uma resposta. Ou essa resposta estaria perdida para sempre!


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

My life

                                  "Vontade de ficar uma vida inteirinha ali, esquecido de tudo, de todos.- Caio F."


Muitas vezes me identifiquei com essa frase. Na maioria das vezes, eu tenho uma vontade de um tamanho absurdo de ir para um lugar qualquer - um lugar na natureza, onde seja só eu e o verde- e ali ficar escondida, por vários anos, até me purificar inteiramente. Para aprender a voltar a ser feliz, voltar a tocar e deixar que me toquem o coração. Uma vida inteira aguentando a maldade das pessoas, precisando me fantasiar de algo artificial para poder ser aceita em uma sociedade injusta. Isso não me parece certo, e muitas vezes gostaria de nem ter começado isso. Quero gritar, quero tirar essa máscara do meu rosto, dos meus olhos. Gostaria de ir para um lugar tranquilo, e ali ficar só por um tempo para depois voltar e mostrar minhas garras para o mundo. Cansei de me esconder por trás de lentes de vidro. Preciso do meu eu de volta, preciso da minha paz. Aquela velha vontade que sobe ardentemente pela garganta e saí em um grito de 'me esqueçam', 'me deixem ser eu'. É um grito quase sufocado. E se quiserem me amar, então que seja por quem sou. Pelo jeito que sou. 
E aos poucos vou recuperando minha coragem, de novamente mostrar a cara para o mundo. 

Tu serás livres o dia que aprender a ser feliz!

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Desgosto!


     As pessoas mudam. Ou eu mudo. O fato é que ninguém é o que era antes. E isso não é considerável bom. As opiniões mudam, os gostos mudam, os pensamentos mudam. E a vontade que tenho, é de sair correndo e gritando. Parece besteira, mas não é. Não suporto ver meus amigos se alimentando de bebida alcoólica e da fumaça dos cigarros. É uma loucura estragar a própria vida, propositalmente. A vida não é perfeita para ninguém, todo mundo sofre. Se entregar ao consumo de bebida e drogas NÃO É A SOLUÇÃO. E o mais inacreditável, é acharem graça disso. Acharem que serão “os lindos”, “os estilosos”, “os poderosos”. 

     Eu vejo pessoas fumando com uma expressão de poder nos olhos. Eu vejo pessoas contando histórias loucas de quando foram em uma festa e beberam demais e achando graça. E além do mais, sabe o que eu vejo? Vejo pessoas perdidas, se afundando na desgraça que elas mesmas criaram. Sinto muito, sinto por todos vocês. Me parece um alívio ver que sou diferente de vocês todos. E por aqueles que também são, e assim pensam como eu. 

     Acabar com a própria vida NÃO é direito de cada um. Se liguem: VOCÊS SÃO UNS TOLOS E IMBECIS. Parece grosseria da minha parte, mas é a realidade. Infelizmente é a realidade que poucos enxergam. Eu não suporto esse lado do mundo. Prefiro viver no mundo dos meus pensamentos, e quando posso, passo o tempo dentro do meu próprio mundinho. Esse mundo já não é mais o mundo de antes. E eu realmente sinto muito por isso. 


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O “amor-genérico” e a perdição da vida.


 A morte de uma humanidade inteira!

     Perto das cinco horas da madrugada, me acordei de um sono cansado. Levantei e fui até minha janela, aberta. De repente me deu tanta vontade de sentar, ali mesmo. No perigo. Mas às vezes faz-se necessário enfrentar o perigo, enfrentar o medo. E num ato de impulso, o fiz. Fiquei ali, sentada na janela feito uma criança levada, enquanto o resto da cidade dormia sonhando seus sonhos mais intensos e profundos. A solidão das ruas era intensa, e nessas horas me sinto mais completa. Sem aquela gente fútil passando pelas ruas. Aquela gente perdida em uma época perdida. Enquanto chamam suas namoradas de “gostosas”, passam a mão em suas bundas e tudo vira uma putaria. Como diz uma musica do Cazuza: “Transformam o país inteiro num puteiro.”

      Estamos todos perdidos em um mundo onde a palavra “amor” torna-se banalizada, aonde o amor verdadeiro vai se perdendo. Sentada ali na minha janela, olhei para o horizonte e uma pergunta veio-me á mente: ‘Aonde o mundo vai parar?’. Estamos envoltos por coisas fúteis, onde a estética torna-se prioridade e todos esquecem que o essencial, é o caráter. Todos vão perdendo o bom senso. Estamos vivenciando algo que chamo de “amor-genérico”. Como aqueles remédios genéricos, que não são os verdadeiros e, porém mais baratos. Assim, dei esse nome. Amor-genérico. Onde o amor não é verdadeiro, onde pode ser encontrado em qualquer esquina com qualquer pessoa. Que culpa tem, os humanos, de serem animais tão inocentes!?  Inocentes de caráter, inocentes de amor, inocentes de vida! Poucos se salvam nesse mundo de hipocrisia, são poucos os que realmente sabem o significado do amor, e o vivem. As coisas podem melhorar ao mesmo tempo em que podem piorar. Apenas depende da humanidade, mas enquanto essa estiver perdida, o mundo inteiro se perde. O grande problema é: como salvar uma humanidade inteira? Se nada os faz pararem de serem tão idiotas. Eu tenho esperanças de um mundo melhor, sinto dizer que esse mundo existe só em minha cabeça. A cada ano, a cada nascer e a cada morrer, perde-se o conceito da vida. “E morrem como se nunca tivessem vivido.”