quarta-feira, 30 de março de 2011

O ultimo sopro

     Com muita pressa, ela corria. Não ligava para a dor em suas pernas, a dor em seus pés e as solas do tênis preto envelhecido. Seus olhos eram de um tom escuro fumegante, a raiva subia cortando-lhe a garganta e terminava em seus olhos. Lágrimas escuras rolavam por seu rosto. A dor em seu peito era profunda.
     A alguns dias vinha sentindo um vazio interminável. O inverno havia chegado mais cedo trazendo consigo seu ar gelado. Fazia muito frio, tanto fora quanto dentro de seu corpo. Tudo o que sentia era o peso do vazio. Em seu coração não havia mais espaço para o amor, para a fé, para a guerra... Para nada! Queria gritar, mas não tinha voz. Apenas corria contra o vento que cortava-lhe a cara.
     A chuva começará a cair, aumentando cada vez mais conforme a velocidade de seus passos. O céu agora era de um tom cinza escuro, chorando em seu rosto. Aquela era uma garota correndo, sozinha e desolada pela multidão. Desejava que alguém a encontra-se, coloca-se seu rosto em seus braços e dissesse que tudo ficaria bem. Faziam anos que não recebia um abraço. Estar sozinha em um mundo gigantesco caía-lhe sobre os ombros, como se carrega-se toneladas de cimento nas costas. Um cimento que endurecia cada vez mais, mostrando uma vida de chegadas e partidas, esvaziando seu coração a cada adeus. Mas ela sabia que todos estavam ocupados demais para ouvirem seus gritos de socorros. Queria parar, descansar, dormir... No entanto, precisava jogar essa dor ao vento. Então, corria, aumentando sua velocidade, corria apesar das gotas pesadas perfurando-lhe o rosto. Corria, sem direção. Corria e gritava. Todas aquelas forças enroladas em sua garganta saiam por sua boca, calando o som estrondoso da chuva. 
     Foi quando me virei e a vi. Uma luz ofuscou-lhe os olhos, e tudo o que ouviu foi o choque de seu corpo contra o caminhão. Paralisei! Ela virou e olhou para meu rosto, do outro lado da rua, e deu seu ultimo suspiro. Ouvi o som abafado de seus gritos! Corri para junto de seu corpo, imóvel. Olhei uma ultima vez para seus olhos castanhos e me vi dentro deles. Foi quando eu soube, que o que eu queria estava ali. Estivera sempre ali, e se foi. Toda a sua dor, passou a ser a minha dor. Eu vivi, relembrando a cada entardecer cinzento daqueles pequenos olhos castanhos. Agora a chuva cobre meu rosto, mostrando-me tudo o que eu vi. Meus pés firmes afundam na terra, enquanto eu choro uma ultima vez!



2 comentários:

  1. angustiante, ah muito profundo; 'Meus pés firmes afundam na terra, enquanto eu choro uma ultima vez! feletir mto'

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  2. Amei o texto *-* mesmo, sinceramente!
    muito profundo, mt legal!

    Bjss :*

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