segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sorrisos esgotados

São tempos difíceis. O inverno vem chegando, com ele o frio e chuvas tempestivas. E eu não estou bem, e preciso que as pessoas percebam isso. Meus maiores sorrisos são falsos e a falta que sinto de mim mesma é a mais perturbadora. Preciso que as pessoas entendam que isso não é um drama, um desabafo ou um pedido de ajuda. Apenas quero que elas sintam que não estou bem, e parem de me cobrar as coisas. Junho vem chegando, não queria estar sim. Chega um tempo que você cansa de esconder essa tristeza, cansa de arranjar sorrisos tortos em vão, cansa de se esforçar para parecer feliz. Porque algo começa a acontecer com a gente, tão lentamente que nem sentimos, ou vamos tentando esconder que sentimos e acabamos acreditando que estamos bem quando a verdade é que nada esta bem. O problema começa quando a pressão ao seu redor aumenta. Eles vão tirando a nossa capacidade de felicidade fazendo com que sintamos na obrigação de circular a dor, e fazendo com que você engula as lágrimas. Passou tudo tão rápido que não tive como perceber o que me acontecia, e agora não sei como resolver. Eu me esforço, acredite, eu tento pensar ao me deitar que quando acordar o dia será mais bonito e o meu sorriso mais sincero.
 Mas toda vez que sorrio, na verdade eu quero ficar aos prantos e talvez te dizer que não consigo mais fingir, não quero brincar de ser feliz, que talvez minha vida esteja sendo irreal à mais de um mês. Quero te dizer que preciso de teu abraço e que preciso também que me deixe em paz. Ando cansada - mais que tudo- , de mim e dessa minha infelicidade incontrolável. Desse despertar na manhã, tomar café, colocar uma roupa pegar os livros e ir para a escola. Suportar as horas, suportar o dia. Pegar, novamente, os livros e voltar, novamente, para casa. Sentar à mesa e fingir ter tido um ótimo dia, implantar sorrisos melancólicos mais uma vez e tentar ser feliz pelo resto das horas. Mas não existe uma fórmula exata para a felicidade. Na verdade, não existe fórmula exata para nada. E cada vez fica mais difícil... Talvez eu precise de você aqui, precise do seu concerto. Ou talvez eu não precise. Preciso de um lugar novo, pessoas novas, carteiros novos, escola nova, ou dormir e tentar tudo outra vez. Acordar com aquela mesma velha farsa, e brincar de ser feliz.



sexta-feira, 20 de maio de 2011

A instabilidade das coisas no mundo

Noites frias de maio, o ar gelado das ruas entrando pelo vão da janela, e a lareira acesa ao lado. Liguei a TV e comecei a passar os canais, nada prestava. Então deixei em um canal qualquer, apertei o botão "mudo" do controle. Voltei-me para a janela, as luzes dos postes eram os únicos sinais repletos na rua molhada. Fui perdendo-me em meus pensamentos, que me levavam a milhas de distância do presente. Percorri meu passado, meus antepassados, meu futuro e talvez tenha até chegado à minhas outras vidas. Se é que isso tudo seja real. Quem sabe seja apenas um jogo, onde somos testados e feitos de cobaias o tempo todo. Quem poderá negar? Somos humanos,  nossa mente esta ilimitada de imaginações, e nossas buscas estão cada vez mais complexas. Cheguei na era paleontológica e comecei um estudo secreto sobre os dinossauros. Fui tirado de meus pensamentos quando duas pessoas passavam em baixo de minha janela, conversando em tom alto sobre o fim do mundo. Achei um absurdo, afinal, o mundo não acabará baby. Talvez só a humanidade seja extinta daqui alguns milênios, mas o mundo continuará trazendo as formas mais variadas de vida. Afinal, tudo é tão instável... Os dinossauros aqui moraram e se foram. Nós aqui moramos e nos iremos. Nossos amores tocam nosso coração e se vão. Amigos descobrem nossos segredos mais secretos e desaparecem. Um dia queremos uma coisa e outro dia queremos outra coisa. Esse é o ciclo da vida, e o ciclo do mundo. Nada é instável que perdure para sempre. Principalmente em minha vida! E quem sabe na sua também, querido leitor. Idéias, pensamentos, ações, sentimentos, desejos, decisões que mudam a todo momento. Vou ficando neurótica tentando achar um caminho certo. Mas se tudo é incerto... Até nossa existência, então quem diga do resto. Ganhar, perder, achar, partir, chegar, e um medo terrível de não chegar ao esperado. Saí da janela, voltei para mim mesma e falei: o jeito é continuar seguindo! Quem sabe para frente haja uma surpresa. E se for para ser, que seja quente e afável, Deus. 



sábado, 7 de maio de 2011

Com o frio, o gelo

De repente, um nó na garganta. Uma sensação de estar tudo se repetindo, outra e outra vez. Uma vontade de querer chorar o mundo todo para fora. Querer acabar, aos poucos, com tudo o que lhe afligia. As mãos tremiam, a voz não saia, e ela tinha medo. Medo de que as coisas voltassem a ser horríveis como eram. Os dias iam passando e ela percebendo, estava ficando louca mais uma vez. Estava ficando brava com as pessoas, brava com o mundo, tornando-se seca e ignorante. Embora por dentro houvesse amor. Seu sangue fervia, seu coração apertava e seus olhos espremiam-se numa tentativa de expulsar as lágrimas. Apesar de ter todos ao seu redor, sentia-se cada vez mais sozinha. Eu me sentia cada vez mais sozinha. Ela sendo meu contraposto, eu sendo ela. E nós duas -vivendo uma na outra- tornando-nos de pedra. Esperando novamente pelo fogo, destruir o gelo dentro de nós mesmas. Acabar com as nuvens negras acima de nossa mente. Tudo voltou, e cadê o amor? Eu espero ele voltar. Espero poder enxergar novamente as cores. Quem sabe andando por aí a gente não encontra o que nos falta. Então eu continuo, vivendo no mais terrível abismo que é nós mesmos. 


Esperando a volta das flores! 


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Memoirs of War

     Sentada, ela esperava, impaciente, a chegada da primavera. Ao lado, uma caixinha de som tocava Pavarotti, enquanto olhava pela janela. Tudo o que via era somente destruição. O céu estava de um cinza escuro, as horas pareciam ter parado e o vento... O vento carregava a poeira, carregava as memórias. Ouvia vozes, sussurros. Tudo havia desmoronado, as casas agora eram tijolos caídos. As crianças perderam o riso e os postes, a luz. Olhava o quarteirão, como se todas as partículas de ar estivessem paradas, sem vida. Nada movimentava, ninguém ousava dar um passo a mais. Havia somente o vazio.
     Olhava para suas mãos, pálidas. Não se moviam. Seu corpo não se atrevia a fazer algum movimento. Uma lágrima, que tanto andou por seu olho, agora encontrará a saída e descia por seu rosto enrugado. Olhava pela janela, e não via as flores, as árvores, os pássaros, e nem os carros. Sua visão voltava ao passado, voltava ao seu marido, voltava aos seus filhos. 1992! Galhos secos caídos, mães chorando por seus filhos, filhos procurando seus pais. E um clarão. Tudo arrastando-se feito onda, pessoas sendo jogadas ao chão. O fogo já não se via, encoberto por nuvens de fumaça. Corpos sendo enterrados. Ela só procurava a paz. Carregava nos braços seus dois filhos, colocando-os ao lado de seu marido. Uma ultima lágrima foi derramada, antes de partir.
     E suspirou, olhando pela janela. Via crianças sorrindo, árvores balançando. Carros iam e vinham pela longa estrada. Chorou aos poucos, devagarinho, soluçando vez em quando. Levou a mão ao medalhão, pendurado em seu pescoço, e sorriu. Aquele sorriso demorado, que se dá no meio de lágrimas. Fechou os olhos e ficou a ouvir uma canção chamada Miss Sarajevo, na voz grave de Pavarotti. Tudo o que o vento não carregou, foram suas lembranças: uma guerra. Mas no fundo de seus olhos, ainda havia esperança!