sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Estrela Sumida

Ando fatigada. É só. Ando fatigada de algumas pessoas. "Tudo bem, isso é normal, também estou", disse-me ela. Mas não, não são as pessoas o problema. Não a sua matéria. Ando fatigada de seus pensamentos, de seus dizeres e fazeres. Ando fatigada dessa cidade, de não ter o que fazer. E ando ainda mais fatigada de estar fatigada. Quero sair por aí, fazer qualquer coisa, apenas me divertir. "Encontre-me" gritou desesperada. Mas não, não irei ao seu encontro. E ao encontro de ninguém, não. Entendam, cansei. 
Esses dias ainda, não me lembro bem ao certo quando, mas lembro que era noite. Levantei de minha cama, caminhei pelo corredor, que no momento parecia ser longo, longo... Fui até a porta, e abri. Mas abri com cuidado, para não fazer barulho. Convenhamos que a pior coisa é você querer ficar sozinho no meio da noite, e de repente fazer algum barulho ou derrubar alguma coisa e ser incomodado com passos apressados perguntando -o-que-foi-que-aconteceu-e-por-que-você-esta-acordado-a-uma-hora-dessas. Então, devo ter demorado mais que de costume para abrir a porta, já que era uma dessas que rangem. Mas não rangeu, para minha sorte. Então saí para fora, um pouco incomodada com a luz da sacada, mas admito que não me dei por conta de apagá-la. Então fiquei para fora, na luz da sacada, e olhei para cima. Algumas estrelas estavam brilhando, me lembrei de como fazia tempo que eu não saia para fora no meio da noite olhar as estrelas. E tão bom sair para fora tomar um ar quando sua casa já é um lugar sufocador. Não queria sair dali, apesar de saber que não poderia ficar muito tempo pois algum barulho foi capitado por meus ouvidos e também queria sair logo dali antes que aparecesse alguém. Resolvi sentar um pouco, assim, no chão mesmo. Tenho fascinação por sentar no chão, mas muitas veze sento no sofá -perto de gente- para não ficarem me chateando com -não-fique-no-chão-temos-sofá-aqui-em-casa. Sentei no chão, então. E fiquei olhando para cima, tendo as vezes que baixar um pouco o pescoço, pois essa tinha sido uma semana puxada, meu corpo doía. Fiquei olhando, olhando, tentando me lembrar quando foi mesmo que parei de observar o céu. No fim, não me lembrei, mas parecia ter sido à tanto tempo... Me peguei pronunciando tais palavras: "Deus, aonde que foi parar minha alegria?". Acabei me sentindo muito tola por estar pensando naquelas palavras, senti vergonha porque -tem-tanta-gente-no-mundo-em-estados-piores e de repente, o que tenho a ver com isso? Sim, eu sabia que tinha tanta gente sem casa comida luz bebida e... Mas eu realmente estava falando e sentindo essas palavras. Preciso me divertir, preciso sair, era tudo o que eu sabia que eu tinha que fazer se não poderia explodir. E naquele momento, era certo que uma pessoa poderia explodir apenas por estar com sentimentos, pensamentos e ideias congestionadas. Então, era isso: eu precisava me divertir mais!
E de repente, outro estalido, lembrei de voltar para a cama. Não queria acordar ninguém. Mas e o que fazer com esse sufoco? Preciso, preciso, preciso sair. Parece que estou presa em alguma coisa que não me deixa sair dessa cidade porque eu-não-te-deixo-sair. Toda essa falta de liberdade estava cortando meu ar, e acabo por criar um profundo nojo. Pelas pessoas que não me deixam sair, pela cidade. Ah, como eu queria ter um par te asas. Mas não, eu não tinha. Não era possível ter uma,algum dia. E essas impossibilidades também me matavam por dentro. Como eu queria arrancar esses -im. E involuntariamente eu ia tomando nojo, ou talvez não nojo, mas não saberia dizer ao certo o que. Mas eu ia tomando alguma-coisa em relação a tudo. 
E sim, eu sentia falta de alguma coisa dentro de mim mesma que acabou perdendo-se, ou, quem sabe, eu só não conseguia mais enxergar. Foi aí que senti uma tremenda necessidade de enxergar. Essa coisa. Enxergar o mundo. Pudera eu entender que o mundo me esperava, e eu não ia. Decidi por ir. Talvez eu não volte. O mundo me espera, e assim alguma coisa dentro de mim retornou a acender. Era só esperar, mesmo sabendo que não teria muito tempo para esperar. Decidi por ir, apenas ir. E agora pelas linhas flutuantes do pensamento eu vou, eu voo, saio de mim. A corda já foi amarrada, preciso dar um jeito antes que eu acabe sufocada. Com a corda. Com a cidade. 
"Você vai dar um jeito" ecoou ela -a voz- dentro de minha cabeça. E sim, eu daria um jeito! 


Um comentário:

  1. "Seja a mudança que voce quer ver no mundo". É um ditado batido, eu sei, mas ele se encaixa perfeitamente aqui. Quantas vezes nos sentimos assim, sufocados, acorrentados, nesse mundo que nos deixa sempre na "condicional", nunca inteiramente "libertos". A audácia de sair, de conquistar o mundo, tomou conta e, agarrando-se a esse sentimento, partiu para desbravar o território. Se vai lograr êxito ou não, nunca saberemos. Mas, o que é uma vitória completa, do que uma série de pequenas derrotas e grandes conquistas?

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