sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O ultimo bom-bom


     Caminhava de um lado para outro, pelos corredores. A noite vinha caindo, e nada a despertava do seu anseio. Tudo ao redor era de um extremo silêncio. Por hora, resolveu sentar-se a uma poltrona, encostada ao fim do corredor, onde o caminho dava para a sala de estar. Quieta, olhou os móveis de soslaio. O balcão, com seus livros em cima, os sofás e abajures ligados, os lustres, tapetes, mesinhas de canto, todos possuindo os aspectos mais antigos. Ah, como adorava móveis antigos. Sentia uma curiosidade por tudo que pertencera à época das suas avós e bisavós. Os discos, os quadros, as cortinas já envelhecidas pelo tempo. Não podemos esquecer-nos de mencionar o lindo piano preto, discretamente colocado ao fundo da sala. E olhava tudo, quando suspirou.
    De repente, seus olhos chegaram a uma pequena caixinha, disposta ao lado do telefone, numa das milhares mesinhas de canto. Lembrara-se de sua infância, lembrara-se do dia passado. Levantou-se se dirigindo ao tocador de discos, de onde começou a soar as mais belíssimas melodias de Mozart. Caminhava pela sala, no mais suave dos passos. Sua mente foi viajando no tempo, enquanto voltava a fitar aquela caixinha de porcelana.
     Antigamente, era cheia de pequenos bom-bons nos mais variados sabores. Um para cada dia. Cada um, para cada humor. Os recheados de morango, para os dias mais doces da sua vida. Os de chocolate, para quando estivesse alegre. E os de maracujá serviam para quando algo triste ou terrivelmente melancólico tivesse acontecido, e jamais perderia as esperanças. Esses eram os que ela mais comia, diga-se por que.
Quando pequena, perdera o pai para uma terrível guerra. Teria ela em torno dos sete anos. Nunca entendera o motivo de seu pai deixar a família para segurar em uma arma, junto com milhares de outros homens sangrentos. Pobre menininha, tão jovem e inocente, pudera jamais querer conhecer os males do mundo. A partir daquele dia, então, vivia só com sua mãe e seu irmão mais novo. Os anos foram passando tranquilamente, enquanto a menina crescia. Quanto tinha de dezesseis para dezessete anos, outro male veio a atingir seu coração: a mãe adoecera. Jovem, viu-se na obrigação de cuidar do seu irmãozinho. Nessa época, foi contratada uma governanta para ajudar a cuidar da família. Era uma ótima pessoa, fazia todo o trabalho pesado dentro e fora da casa, dando descansos para a nossa menina, também a dando aulas de piano, durante todas as noites. E um ano depois, a mãe acabara de morrer. O luto foi grande, a menina sentiu-se perdida em um mundo grande e estranho, o qual não queria conhecer. Nessa fase, o irmão já havia crescido o suficiente, e agora era a governanta quem mais o cuidava. Foi nessa mesma época, que a menina comprou a caixinha de porcelana, enquanto visitam uma feira que se instalou na cidade por um mês. Então, começou a sua mania pelos bom-bons. Não é necessário dizer que desde esse momento, ela comia mais os de maracujá. A cada dia que acordava.
     Os dias eram quase os mesmos, sempre nas mesmas rotinas. A menina acordava, saia para os seus afazeres, depois que o relógio batia meia-hora, ela dirigia-se a caixa de bom-bom. Na maioria dos dias, no seu tempo livre, corria para debaixo de uma das árvores do pátio e lia um livro. Mais tarde, ela, a governanta e o irmão reuniam-se, e inventavam alguma brincadeira. À noite, era sua aula de piano. Melhorava a cada dia, tornando-se uma grande pianista. E assim seus dias foram caindo na rotina. Porém, em uma manhã, ela levantou e ouviu vozes estranhas vindas de fora. Como não eram habituados a visitas rotineiras, sentiu um pouco de medo e ansiedade. Vestiu-se e correu para fora, onde encontrou um belo rapaz, com boas vestimentas, conversando com a governanta, que naquele meio tempo, já se tornara uma amiga familiar. O rapaz trazia a notícia de que a jovem e o menino ainda tinham mais um familiar vivo. Um senhor de terras, que dizia ser seu avô. Como era de se esperar, a governanta teve um choque. Era quase impossível, sendo que eles jamais souberam da existência desse senhor. Mas era uma história de família muito complicada. A vida sempre surpreende. Esse senhor desejava vê-los, pagando a viajem até sua casa, duas cidades depois de onde eles estavam, e onde era para eles morarem. A surpresa foi grande, mas a nossa menina e seu irmão foram. Porém, houve uma série de despedidas da governanta, já que eles jamais se veriam novamente.
     Os anos foram passando, e agora comia mais bom-bons de chocolate. Já se tornara uma grande pianista, e seu irmão estava entrando para a escola. Dias calmos e serenos, eram a vida da menina. Saia para passear a cada fim de semana, e quando dava, tocava em algum evento quando chamada. Seu avô era um homem carinhoso, dava tudo o que eles precisavam. A vida para a menina tornava-se cada vez mais feliz, e ela já nem lembrava mais dos males que a tinham atingido. Vez em quando, sentia uma tremenda falta do lugar onde crescera, mas não mais desejaria voltar para lá. Era o que pensava.

     Mas, outro dia terrível teve que chegar para ela. Como era de se esperar, seu avô acabou falecendo, deixando a casa para os dois morarem. A jovem tinha vinte anos agora, e seu irmão, quatorze. Foi com muita dor, que os dois o enterraram. A adorável jovem sentiu-se mais uma vez desamparada, tendo um peso vazio dentro do seu olhar. Sua força era seu irmão. E como a vida fora cruel com ela...No mesmo ano, seu irmão acabou pegando uma das piores febres já vistas, e nenhum medicamento foi capaz de salvá-lo. O mundo ficou preto, seus olhos já não tinham mais brilho. Sentia uma tremenda falta de tudo. Sentia falta da sua infância, o melhor momento de sua vida. Decidiu ir visitar sua antiga casa, que ainda estava com todos os móveis no lugar. Levou consigo apenas a pequena caixa, deixando-a no lugar inicial. Andou por cada milímetro, chorando pouco as vezes.

     Por fim, sentiu medo. Mas de que? Agora, não teria mais nada para perder, por ironia do destino. Estava sozinha, e por mais que doesse a perda, ela sentia um alívio perturbador. Só o que possuía agora era a própria vida, que em um sopro, poderia se esvair. Naquele dia, ficaria na antiga casa. Então caminhou até a caixa de bom-bom, tirou o ultimo sabor, de maracujá, e pôs-se a sentar no sofá. 

Com um sorriso melancólico no rosto, acabou adormecendo.









Nenhum comentário:

Postar um comentário